Missões Jesuíticas: uma interpretação

 

O Novo Mundo apresentava um panorama peculiar. Se por um lado as belezas naturais deixavam extasiados os europeus recém-chegados, numa abundância de cores e formas que figuraram no imaginário europeu como algo totalmente novo, e portanto exótico, por outro, aos olhos do europeu, era ocupado por bárbaros infiéis, desconhecedores da verdadeira fé, que, no caso dos missionários da Companhia de Jesus, era personificada pela doutrina católica. A catequese e a ação nefasta dos jesuítas no Brasil colonial ao longo do séculos XVI dizimou literalmente a população indígena da terra brasilis. Pode-se afirmar que o espírito mercantilístico e de Cruzada figurou como um dos elementos fundamentais do imaginário europeu do século XVI, e a conquista empreendida na América teve como elementos figurativos o ideário da Cruz e da Espada. Além disto, tem-se o Estado Absolutista como instituição de governo vigente, onde a idéia de monarquia divina é fato e, sendo assim, em última instância Deus é o "dono da Colônia" figurando, desta forma, a Cruz como garantia do espaço em território americano. Tendo como foco as crianças, visto que com os índios adultos não conseguiam o seu intento, os jesuítas combatiam a antropofagia, a nudez, a poligamia, o nomadismo e a pajelança, desacreditando perante os petizes os seus líderes como algo demoníaco. Essa incorporação de valores culturais e imposição do invasor pôs os índios em parafusos, muitos cometeram suicídio por conta da confusão mental.
Após o Concílio de Trento, e sob o impacto da Reforma Protestante na Europa, a Igreja Católica Apóstólica Romana e o Estado Português, entidades inseparáveis, abalada procurou revigorar seus postulados dentro do próprio continente. Como estratégia de disseminação da fé católica estava a conquista de novos rebentos e, para isso, as colônias do novo mundo se mostravam de suma importância. A população guarani detinha uma organização própria, tanto social como religiosa, de que os jesuítas valeram-se para o processo catequético.
A América foi descrita nos primeiros contatos entre espanhóis e ameríndios como um lugar sem L, R e F, ou seja, sem Lei, nem Rei nem Fé. Neste espaço compreendido como "vazio", ou seja, desprovido de fé e civilização, fazia-se imperioso o processo de conversão daqueles povos que vivam até então à margem da "civitas", iniciando-se o processo que ambicionava a ocidentalização dos povos ameríndios. Na América Espanhola, percorrendo áreas habitadas pelos indígenas, os jesuítas consolidaram a presença da Igreja, contribuindo para a implantação do império colonial. Interessante ressaltar que as Missões enquanto espaço físico, como a de São Miguel, por exemplo, não foram a primeira tática empregada pelos jesuítas para o processo de conversão. Em um primeiro momento, as Missões tinham um caráter itinerante, onde os missionários passavam pelas aldeias indígenas batizando, e portanto, convertendo os gentios de aldeia em aldeia. Tal tática não surtiu o efeito desejado, uma vez que em findada a "visita" dos jesuítas, dava-se a imediata volta dos indígenas aos seus costumes originais. Esta dificuldade de conversão, aliada a fatores de proteção contra os colonos espanhóis, garantia de posse dos territórios conquistados e apresamentos indiscriminados, levaram à adoção da redução dos indígenas a espaços físicos determinados, que ficaram conhecidos então como Reduções.

As Missões se inserem no contexto colonial como um projeto evangelizador propriamente dito, que ficou também conhecido como "Conquista Espiritual", título da obra bastante conhecida escrita por Ruiz de Montoya. Envolveu diferentes ordens religiosas, tais como franciscanos, desde 1533, dominicanos, desde 1509, bem como jesuítas, que chegaram a partir de 1566, estabelecendo-se em 1568 em Lima e 1572 no México. No início do século XVI, havia missionários reduzindo índios à fé cristã em todo o continente. É o próprio padre Antônio Ruiz de Montoya quem nos oferece uma definição para o que viria a consolidar-se como o sistema reducional: "... ainda que aqueles índios que viviam de acordo com seus costumes antigos em serras, campos, selvas e povoados, dos quais cada um contava de cinco a seis casas, já foram reduzidos por nosso esforço ou indústria a povoações grandes e transformados de gente rústica em cristãos civilizados com uma contínua pregação do Evangelho".

Assim, durante os séculos XVI e XVII, a América do Sul meridional via-se como alvo dos projetos missionários franciscanos e jesuítas. Para os reinos português e espanhol, as Missões significavam a civilização das populações ameríndias, podendo estas lhe ser, desta maneira, úteis para suas determinações coloniais como exército, mão-de-obra, forma de obtenção de excedentes agrícolas. Este processo de penetração colonial atingiu de maneira particular os Guaranis devido a duas características principais: sua estrutura religiosa, possuindo certos elementos similares ao cristianismo, que foram aproveitados e seu desenvolvimento agrícola apurado, que favorecia sua inserção na lógica missioneira. Conhecidos na época como Carijó ou Carió, os grupos guaranis encontravam-se principalmente nas áreas da bacia dos rios Paraná, Paraguai e Uruguai, não ocupando o território de modo homogêneo.

Com o sistema de reduções, os missionários jesuítas, com a permissão governamental, buscaram converter, civilizar, os Guaranis. Isso pode ser observado no documento que trata da entrega da província do Uruguai por Dom Francisco de Céspedes, governador da província do Rio da Prata. O sistema colonial espanhol, em suas várias Ordenações, determinava o respeito à liberdade natural dos indígenas, mas permitia o chamado serviço pessoal. Nesse sistema, a "encomienda" deixava que os colonizadores obrigassem os índios a trabalhar, como forma de indenização pelos serviços de civilização e cristianização recebidos.

A partir de 1609, a Província Jesuítica do Paraguai colonizou um imenso território onde, durante quase 160 anos, desenvolveu-se um sistema social cooperativo, livre da "encomienda". Com os Guarani foram criados trinta povoados em um território hoje dividido entre Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai. A história que se desenvolveu neste território foi, sem dúvida, marcada por relações de intensidade indescritível, onde o encontro entre duas culturas tão diversas, como a dos Guarani e dos europeus, constituiu uma lógica própria, repleta de significados e simbologias que até hoje colocam-se como questões latentes para a contemporaneidade.

É possível que se tente entender este processo sob a ótica de uma relação em que resistência e integração são uma constante, produto direto do grande projeto civilizador. Para tornar mais clara tal afirmação, pode-se citar o campo da medicina como exemplo desta dicotomia integração/resistência. O projeto conversional presenciou no campo da medicina um de seus maiores inimigos, visto que a cura indígena, centralizada na figura do xamã, entrava em oposição direta com os procedimentos médicos ocidentais, representados pelo jesuíta. Este percebeu rapidamente a importância e o trunfo que representavam seus conhecimentos acerca dos processos de cura frente aos indígenas.

O xamã, ao contrário do cacique, que, enquanto poder político, foi mantido dentro da redução, teve sua figura desmoralizada frente a toda a comunidade, que até então tinha seus conhecimentos como certos. No campo espiritual o poder indígena deveria ser totalmente banido. O poder que o jesuíta adquiriu, no momento em que passou a figurar como uma outra espécie de xamã, somente foi possível por um outro fator de importância fundamental na história das Missões Jesuíticas: as epidemias, elevando a peste ao patamar de decisão acerca do poder do curador. O xamã, também denominado feiticeiro nas cartas jesuíticas, figurou dentro do projeto evangelizador como personagem que incitou a resistência através de discursos e mobilizações, baseando-se em profecias e na percepção de que o modo de ser guarani estava seriamente ameaçado pelo projeto missioneiro. Mais especificamente a partir de 1613, os missionários jesuítas foram alvo de várias manifestações xamânicas contra a pregação cristã, quando uma série de reduções estavam sendo fundadas e o modo de vida indígena estava mudando radicalmente. Por outro lado, a comunicação cultural que invariavelmente ocorreu com a utilização de ervas medicinais locais pode ser tida como um dos caminhos pelos quais processou-se a integração. A singularidade da situação então vivenciada legou um proceder em que o conhecimento empírico era a única possibilidade. Neste sentido, doença e cura figuram como campo de troca de conhecimentos, resultado parcial do contato entre espanhóis e ameríndios.

O Pe. Thomas Falkner foi patrocinado pela Royal Society, de Londres, para estudar as plantas e as propriedades das águas americanas. Dentre as publicações existentes, destacam-se: "Herbário", de Azara, "Tratado de Doenças Americanas Tratadas com Remédios Americanos", do Pe. Thorpe, "Observações Fitológicas sobre as Plantas Rio Platenses", do Pe. Sánchez Labrador e "Botânica Médica", fartamente ilustrados. A documentação registra a importação de instrumentos cirúrgicos assim como a produção e venda de remédios produzidos na região, entre os quais o famoso Bálsamo do Paraguai.

Outro exemplo do processo de resistência pode ser percebido em trechos da "Conquista Espiritual", de Montoya, onde são descritos alguns rituais desenvolvidos pelos próprios indígenas do movimento de resistência, no sentido de opor-se e tentar desfazer-se do cristianismo em suas práticas e prédicas. O "contrabatismo" tem forte conotação no que se refere à tentativa de resgate de um modo de ser que já havia sido alterado nos índios reduzidos. Segundo alguns pesquisadores, o ritual de contrabatismo, tinha significado fundamental, uma vez que o nome próprio é para os Guarani "...fluido vital capaz de influenciar, de fora para dentro, a pessoa.".

Vale lembrar a figura do índio "infiel", xamã ou profeta, e as suas ações, que são identificadas como ações ligadas ao demônio, habitante "ilustre" das terras da América. A semelhança estabelecida por Montoya entre um tigre e o homem, "tomado pelo demônio", que havia devorado sua própria família, pode ser tido como exemplo desta caracterização negativa do "infiel" frente aos "homens de Deus".
A transformação do jesuíta, na procura da compreensão da outra cultura, principalmente no que se refere ao idioma, foi outro fator de grande importância para a conquista espiritual. A língua guarani, traço fundamental do modo de vida dessa nação, foi mantida nas Missões mas, aos poucos, foi sendo modificada em suas formas e no conteúdo de suas expressões. A tentativa de extinção dos xamãs, que utilizavam a palavra inspirada como suporte às narrações míticas, à eloqüência política e aos cantos, esvaziou parcialmente o significado da língua tradicional. A nova religião utilizava outras formas de discurso, que se serviam das orações, dos catecismos e das pregações. É grande a preocupação em aprender a língua dos nativos e transpor rapidamente a divindade e santidades católicas para o guarani. Além disso, seria interessante mencionar que a percepção e aproveitamento de concepções e crenças dos Guarani é ponto a favor do missionário, visto algumas possíveis semelhanças. Neste sentido, Montoya apresenta-se como um exemplo, pois sua percepção sobre a importância e credibilidade que tinham as visões para os indígenas permitiu uma catequização constante e eficaz. Se na Europa as visões já tinham influência sobre as pessoas, na América elas serão utilizadas como mais um elemento de instrumentalização da catequese. Os padres da Companhia de Jesus prontamente também perceberam que a educação das crianças era a forma mais eficiente para afastar os Guarani de sua cultura original. A catequese das crianças foi encarada como grande trunfo para o processo conversional, onde a utilização do teatro e da música tiveram papel fundamental.

Vale lembrar que a língua guarani tomou forma através do registro de jesuítas, que dedicaram-se a aprender o guarani, convertendo-o em diversos registros, a exemplo do "Tesoro de la Lengua Guarani". Também as fontes das quais dispomos para procurar compreender o modo de vida guarani e a totalidade de suas estruturas, são produto exclusivamente dos registros jesuíticos, como as Cartas Annuastrês mil. Tal circunstância lega aos historiadores a difícil tarefa de trabalhar com fontes primárias que possuem, por si só, teor de discurso bastante intencional. Ainda assim, o indígena ganhará voz, indiretamente, neste discurso. Nas cartas, sua fala é produto de percepções do jesuíta sobre o indígena, o que, porém, não impede que a voz deste último figure, como personagem que atuou no processo catequético, como parceiro silenciado, mas não silencioso.

Observa-se, assim, que a conversão dos Guarani estava associada a uma concepção antropológica oriunda da cultura européia, que estabelecia uma relação dualista entre bem e mal. Porém, a capacidade de compreensão da estrutura mental guarani permitiu aos conversores jesuítas realizarem seu intuito. Práticas que afastavam o indígena da religião católica eram contornadas pelos padres com uma impressionante perspicácia. Os objetivos da conversão foram alcançados através do convívio diário entre os jesuítas e os Guarani, em que os primeiros foram gradativamente estabelecendo uma relação de confiança mútua alcançada pela percepção em relação à cultura do "outro", pois as medidas de imposição mostraram-se constantemente incapazes.

O urbanismo, a arquitetura e as artes tiveram grande desenvolvimento e foram utilizados como instrumento de apoio à Conquista Espiritual. As Missões adotaram um modelo de urbanização que foi aplicado, com pequenas variações, nos trinta povoados. A organização espacial dos povoados detinha em si não somente uma estrutura física como também de organização social para um melhor desenvolvimento do ideal de evangelização. Imbuídos do espírito civilizador, próprio do ocidental para com os povos ameríndios, os jesuítas tiveram na redução a possibilidade de concentrar os indígenas de forma a trabalhar dia a dia seu processo educacional e doutrinário.

A música foi um dos instrumentos utilizados pelos jesuítas para propósitos de conversão. Como diversas outras simbologias indígenas que foram aproveitadas pelos missionários, a exemplo das visões e da importância da palavra entre os Guarani, a música, também aliada à dança, tem importância fundamental nos ritos indígenas. O ensino de música européia iniciou-se pela flauta, através do padre Diego de Torres, atingindo seu apogeu com a vinda do padre Jean Vaisseau e seu irmão, Louis Berger, em 1622, quando foram introduzidos diversos instrumentos. Além disto, a música servia também como atrativo para levar neófitos à Igreja. A música era executada por orquestras de índios que reproduziam instrumentos musicais europeus e americanos, onde se percebe a utilização de maracas, por exemplo. Na Igreja de Trinidad, no Paraguai, é possível reconhecer, esculpidas nos frisos, as representações de alguns dos instrumentos ameríndios.
Em seu trabalho de catequese, os jesuítas foram produzindo anotações, diários, desenhos, planos e mapas, que são os primeiros documentos gráficos acerca desta parte da América. Estão documentados os acidentes geográficos, a hidrografia e a orografia. Pouco a pouco foi sendo produzida uma documentação que registrava também as estações do ano, os ventos, os furacões, os solstícios, as propriedades dos ares, a diversidade das terras e os minerais existentes. Diversas obras foram publicadas sobre os hábitos dos povos indígenas, constituindo-se em importantes fontes etnográficas.

A língua guarani, transmitida tradicionalmente de maneira oral, foi estudada e escrita, produzindo-se gramáticas, dicionários e outras obras, entre elas, "Arte, Vocabulário, Tesouro e Catecismo da Língua Guarani", do padre Antonio Ruiz de Montoya, e "Compêndio da Língua Cristã para Crianças", do Pe. Cristóbal Altamirano.

Grande número de cartas de caráter histórico, a maioria delas inéditas, localizam-se em museus e arquivos na América e Europa, entre eles, a Biblioteca Nacional, do Rio de Janeiro, a Biblioteca Nacional de Santiago do Chile, o Arquivo da Nação Argentina, o Arquivo Geral da Baviera, o Arquivo Histórico Nacional de Madrid, o Arquivo Geral da Companhia de Jesus, em Roma. Destacam-se as do padre tirolês Antônio Sepp, publicadas em "Viagens às Missões Jesuíticas e Trabalhos Apostólicos".

Talvez a fonte mais completa acerca do processo de evangelização empreendido na América e todas as suas decorrências consista nas Cartas Annuas. Boa parte das Cartas Annuas ainda não foi pesquisada, o que garante aos estudos missioneiros ainda amplas possibilidades. Parte dos documentos foi microfilmada, como a Coleção De Angelis, da Biblioteca Nacional, da qual existe cópia no Centro de Pesquisas Históricas da PUCRS. A Biblioteca Nacional publicou, sob a direção de Jaime Cortesão, uma seleção da mesma coleção.
Os limites entre Portugal e Espanha na América Meridional figuraram desde o início do período colonial como questão polêmica. Ainda que durante o período da União Ibérica (1580-1640) tais limites ficassem suprimidos, visto estarem os países unidos, tanto na Europa quanto na América, os domínios portugueses e espanhóis tinham questões latentes, que viriam a consolidar-se como divergências entre os dois países. A região do rio da Prata tinha papel fundamental no escoamento da produção da região e, fundamentalmente, de servir de entreposto ao contrabando da prata que vinha de Potosí. O Tratado de Madrid de 1750 estabeleceu que a região da Colônia do Santíssimo Sacramento, sob domínio português, passaria a pertencer à Coroa espanhola, e esta, em troca, entregaria a Portugal os Sete Povos das Missões, até então possessão espanhola. Além disto, o Tratado previa a transmigração do contingente populacional dos Sete Povos para a Banda Ocidental do Uruguai, levando consigo também o que fosse possível em termos de bens móveis. Os jesuítas do Paraguai ficaram sabendo da troca somente em fins de 1750. A Companhia de Jesus tinha prazo de apenas três meses para se organizar, tendo por encargo dirigir o êxodo de aproximadamente três mil pessoas e sete mil cabeças de gado. A tentativa de transmigração dos Sete Povos levou a Companhia de Jesus ao descrédito, abalou sua autoridade perante os índios, revoltou os missioneiros e uniu os fiéis contra os espanhóis, provocando a Guerra Guaranítica. Além disto, os jesuítas ficaram ainda mais desmoralizados por serem acusados por outras nações européias de dificultarem a troca .

Paralelamente a esta situação, tinha-se na Europa o fortalecimento crescente do absolutismo monárquico na figura do Déspota Esclarecido, que tinha por ideal básico a centralização total do Estado, o que se chocou com o poder que desfrutava a Igreja Católica, tanto em termos políticos como econômicos, dada a grande concentração de territórios em suas mãos. A Ilustração em termos políticos correu no sentido de diminuir tal poder, o que veio a corroborar com a campanha de difamação sustentada em fins do século XVIII relativa aos missionários jesuítas. Na Europa, os jesuítas foram acusados de dificultar a transmigração do contingente populacional dos Sete Povos para a margem direita do rio Uruguai. Além disto, foram acusados de construir um Estado dentro de outro, isto é, de que as Missões Jesuíticas instauraram-se dentro do império colonial como estrutura diversa, onde a relativa independência assumida pelo sistema reducional fazia frente à lógica da colonização. A reação por parte dos indígenas frente à troca não foi das mais positivas, reafirmando a condição de vassalos, mas negando a transmigração, não conformados em deixarem o espaço que até então ocupavam e que haviam construído. Além disto, a situação era peculiar, visto que terras que não pertenciam aos jesuítas estavam sob posse dos colonos espanhóis ou ocupadas por tribos inimigas. Em 1768, com a expulsão dos jesuítas, teve início a decadência das Missões, que passaram à administração de autoridades civis espanholas.
Hoje podemos conhecer e vivenciar um pouco desta história, através do Circuito Internacional Integrado das Missões Jesuíticas dos Guarani, um roteiro de Turismo Cultural, que abrange visitas aos locais históricos e aos atrativos naturais da região. São monumentos, sítios arqueológicos, museus, arquivos e bibliotecas, centros de interpretação, exposições, vídeos, música e espetáculos de som e luz. Nessas visitas, é também possível conhecer e acompanhar os trabalhos de pesquisa e conservação que são executados em cada país.

Com a criação do MERCOSUL, as ações passaram a ser orientadas por uma visão integrada em nível regional, com projetos que estabelecem o intercâmbio técnico e diretrizes comuns no âmbito da cultura, da educação e do turismo.

Os países herdeiros desse patrimônio têm uma enorme responsabilidade com as futuras gerações no sentido da valorização das populações Guarani, hoje ainda marginalizadas, e dos remanescentes missioneiros, importantes fontes de desenvolvimento social, econômico e cultural da região.
 
        Nos aldeamentos jesuíticos os índios eram educados para viver como cristãos. Essa educação significava uma imposição forçada de outra cultura, a cristã. Os jesuítas valiam-se de aspectos da cultura nativa, especialmente a língua, para se fazerem compreender e se aproximarem mais dos indígens. Esta ação incrementava a destribalização e violentava aspectos fundamentais da vida e da mentalidade dos nativos, como o trabalho na lavoura, atividade que consideravam exclusivamente feminina
 
Do ponto de vista dos jesuítas, a destruição da cultura indígena simbolizava o sucesso dos aldeamentos e da política metropolitana inspirada por eles. Os religiosos argumentavam que as aldeias não só protegiam os nativos da escravidão e facilitavam sua conversão, mas também forneciam uma força militar auxiliar para ser usada contra tribos hostis, intrusos estrangeiros e escravos bêbados. Entretanto, os efeitos dessa política eram tão agressivos e aniquiladores da identidade nativa que, não raro, os índios preferiam
A catequese dos índios não foi um processo sem conflitos. Os jesuítas foram um braço da coroa portuguesa no Brasil e tinham objetivos próprios. Tornaram-se um grupo muito poderoso e geraram um Estado dentro do Estado