CHAPEUZINHO VERMELHO hoje
 
      A não ser a morte, não existe algo mais estressante do que uma doença terminal, ou o desemprego e as dívidas e a certeza do aluguel a vencer, ou a boca do filho que não cessa de abrir e fechar.  Portanto, não espere uma história com final feliz, pois esta será triste, admonitória, mas pelo menos não será estressante. 
     Chapeuzinho ainda está em fase de crescimento e amadurecimento, não é mais criança e precisa ler, ouvir e saber disso. Não queira também a leitora, ou leitor, que este conto seja de fada e politicamente correto, maquiado de pudores e que  comece com “Era uma vez...”,   ou então  "... e viveram felizes para sempre". Não !   Isso já era.  Esse é um conto de sa fadas.
Do ponto de vista do lobo:
O lobo é um predador.
Mas Chapeuzinho gosta de viver perigosamente, gosta de 'fortes emoções', e não sabe o perigo que corre. Não opera racionalmente, normatiza-se pelas emoções.
O lobo é predador por natureza; É de sua natureza atacar, comer, devorar. Portanto, Chapeuzinho, cuide-se. Pense bem, seja racional.  Daqui a alguns anos o arrependimento poderá ser tardio. Você poderá ter uma gravidez indesejada...
 
       Bem, primeiramente vamos ao modo de como Chapeuzinho foi violentada já no nome. O nome batismal, consciente ou inconscientemente, faz parte dos qualificativos que se desejam para a criança e os pais, nesse ato, evocam atributos conotativos, onde a pluralidade de sentido e significado do nome fará parte de sua própria existência. O epíteto Chapeuzinho é um substantivo polissílabo. Afetivo, carinhoso...  Mas a maioria das pessoas tem o hábito de reduzir e retaliar os nomes, assim que Chapeuzinho também sofreu esse efeito hipocorístico, e o morfema "zinho" do apodo foi-lhe extirpado. Figura de linguagem que consiste em reduzir o nome de uma pessoa para uma melhor, mais suave e mais fácil pronúncia, assim que crianças com o nome de Gabriela, se convertem em Gabi; de Aparecida, para Cida; de Beatriz, para Bia.  E foi assim que Chapeuzinho, que casualmente tinha por sobrenome Joana, viu, de uma hora para outra, na escola, seu nome, prenome e sobrenome apocopado, não se sabe por quem, para Jana.  E Jana colou e ficou. 
       Jana, 12 aninhos, gatinha, filha caçula, em fase de crescimento, amadurecimento e aparecimento, morava  com sua mãe e seu irmão mais velho numa bela casa da Cohab, reformada. Sua mãe era separada, mas seu pai era presente na educação moral e formal, motivo por que a mãe recebia uma boa pensão alimentícia. Se passavam apertados, com uma certa dificuldade financeira, era questão de administração caseira de cada um, é lógico, porém não viviam na miséria.
       E pululava na cabeça de Jana o fato de ser "gatinha", lisonjeada por muitos e que poderia mesmo a vir a ser modelo, isso lhe afagava o ego, principalmente quando as amigas e parentes faziam-na ver por esse prisma. 
       Mas o Grilo Falante do seu pai, falava no subconsciente da filha: "Não queira ganhar a vida com seus atributos físicos, mas sim com seus atributos intelectuais; você tem que escolher entre duas prioridades na sua vida, minha filha: Sexo ou Trabalho Profissão/Emprego - Namoro ou Estudos, buscar primeiramente sua independência financeira e alcançar um lugar ao sol, pois seus pais um dia hão de morrer. E é somente no dicionário que Sexo vem antes de Trabalho".
       E continuava: "embora você tenha 12 anos já deveria pensar em sua formação profissional, pois o mundo globalizado requer que se faça um projeto de vida muito antes de se chegar à idade adulta ou à faculdade". 
       Na realidade a mãe dela era uma maria-vai-com-as-outras, apática,insossa, não se impunha, ou seja, não tinha voz ativa e de comando. Era uma boca murcha
       Mas as admoestações paternas eram contundentes e lhe ecoavam na cabeça: "Não ande pelos becos e vielas, não minta, faça tudo de forma correta na vida.  E cuidado com a sua Caixa de Pandora e esses docinhos. O Lobo, quando os quer devorar (comer), usa de todo tipo de artimanha e oferece mundos e fundos, o 171 tem a melhor lábia do mundo... é bom de conversa e se a menina ficar grávida quem irá sofrer será o próprio filho ou filha, além dos pais".
        Era um corolário de recomendações: "porque criar e manter uma criança custa caríssimo: é tempo despendido, levar ao médico, comprar fraldas, leite em pó, roupas, medicamentos, brinquedos....  mercadoria que não se valoriza, se banaliza. Mercadoria barata não tem valor. É a lei da procura e da oferta. Além disso a mãe ou pai da criança nunca poderá ficar desempregado, não pode ficar doente, tem que pagar um bom plano de saúde, tem que ter casa própria porque o aluguel é de matar, não pode morar com os pais ou sogros, tem que ter uma boa creche, se possível perto de casa, ou ter que pagar uma babá, então, pra se ter filho tem que ter estabilidade emocional e financeira ou ser rico; do contrário, sendo pobre, só irá sofrer..."
          E por aí vai a ladainha. Aquela ladainha ouvida todos os dias enchia a paciência da menina. Esta ainda retrucava dizendo que o vestibular estava muuuuuito distante,  que o período de férias escolares era para ser "curtido" e não precisava pegar em livros para ler, pois já fazia as devidas leituras recomendadas pelo colégio e que não precisava ler os livros recomendados pelo pai. Preguiça intelectual.
       Mas todos os mortais têm defeitos. Se os pais tinham desvios de personalidade, comportamento e/ou caráter, isso pertence a outra esfera jurisdicional; o importante é que procuravam passar à filha os melhores valores e experiência de vida. Mas enganam-se os que pensam que só a mãe ou o pai dela tinham defeitos. Jana também não era nem um pouco santinha, nenhuma flor que se cheire.
       Chapeuzinho, era seu apelido porque, quando criança, sempre que algum garoto da vizinhança lhe dizia alguma gracinha ou coisa assim, ela ficava vermelha de vergonha. Mas agora, pelo que deixava transparecer, estava perdendo a vergonha. Gostava de dançar... até aí nenhum problema. Mas gostava de rebolar. Isso assanhava os garotos; e os homens também. E ela se achava.
Era pura luxúria, lascívia, exuberância sexual. E de Chapeuzinho sofria uma metamorfose.
        A cor vermelha está aqui porque a heroína desse nosso conto de sa fada estava em fase de amadurecimento, de menstruação, já era adolescente. A mãe e o pai dela estavam sempre a lhe aconselhar sobre as coisas da vida. Embora tivessem lá os seus defeitos, cada um sabia o que era bom pra filha. Que não poderia dar confiança para homens casados, etc e tal e que deveria primeiramente buscar sua independência financeira e alcançar um lugar ao sol.  Mas era muito liberal. A curiosidade e coceira dela eram muito grandes. Não podia ver um rapaz sobre uma motocicleta ou num carrão que se derretia e se molhava toda. Ela já estava mocinha, com seios empinados e era “pré-aborrescente”, estava entrando na puberdade. O perigo para ela era excitante. Gostava de viver perigosamente.
        E aconteceu certo dia, alguns anos depois, que Jana conheceu um rapaz pelo qual apaixonou-se perdidamente.
 
       Foi assim...

       Certo dia ela estava na parada de ônibus, a caminho da escola, quando apareceu-lhe um rapaz bonito em uma moto potente e ofereceu-lhe carona. Ficou fascinada com o tamanho dos órgãos (moto) do rapaz. Esse "Don Juan", de nome Eros, era bom de bico, bom de conversa, muito 171 e vaselina, e papo vai, papo vem, levou-a no bico, na conversa, foram-se para umas quebradas e "fizeram  amor" perdidamente.
 
      
      Enquanto gemia alto na floresta ninguém a escutava. A menina "ingênua" acreditou, a mãe ausente e a vovó velha e doente nada puderam fazer. Mas, havia por perto um caçador, um lenhador, um policial ? Não. E, mesmo que houvesse de que adiantaria ? O perigo para ela era excitante. Gostava de viver perigosamente.  Agora poderia dizer para as amiguinhas que já era mulher.
        Esse colóquio durou alguns meses, rendeu alguns passeios de moto, estendeu-se pela internet, twitter, pelos sites de relacionamento e de coisas escusas. E começou a cheirar. Os conselhos, admoestações e recomendações das amigas e dos pais de nada valeram. Não era amor, era paixão. Afastou-se de amigos e amigas, não deu ouvidos ao que lhe dizia o pai. Beber já era café pequeno. 
              Frise-se que o pai dela sempre lhe dizia que seu melhor namorado ou marido era sua profissão. Admoestava-a a estudar, trabalhar e fazer um curso profissionalizante; procurar, se possível, ser funcionária pública. Argüía que o melhor patrão era o Governo. Mas enfim, a Caixa de Pandora de Jana foi aberta, violentada e dali saíram as desgraças.  No fundo só ficou a esperança, de cor verde. Seria o verde da grama ?
       Caso é que Jana engravidou. E o rapaz, de quem não sabia nem o endereço nem parentesco, desapareceu.
       E nascido o filho veio o desemprego, o infortúnio, o aperto para toda a família, a amargura, a tristeza... O Lobão, porém, fanfarrão, vaselina, príncipe pedófilo, se deu bem e continuou a viver na cidade, livre e leve, sem ter que alimentar e cuidar do filho bastardo. Sobrou pra quem ? Se você pensou nos avós, acertou ! Isso mesmo ! Para os pais de Chapeuzinho, logicamente.  E já velhos tiveram que empurrar locomotiva e vagãozinho morro acima durante muito tempo, com o salário de aposentadeoria, durante muitos anos, tal como Sísifo.  Dureza.
       Os pais de Chapezinho um dia morreram. Não sem antes, por obra do acaso ou da Providência, mas mais por inteligência e previdência, haverem adquirido um jazigo no cemitério, pelo que, na hora da morte não foram pesados para a filha.
        E Chapeuzinho e o filho não viveram felizes para sempre.
 
 
outros desdobramentos- O FILHO DE CHAPEUZINHO
 
       Mas felizmente – ah !  agora sim, um felizmente neste último capítulo da vida de Jana, o que seria, na verdade na visão pagã do leitor, uma anomalia; mas continue lendo. Não é apenas um modo de transição da vida de Jana para a vida do filho. Felizmente não é apenas uma transição de frase. A vida dá suas voltas.
      O filho de Chapeuzinho, não se pode afirmar se feliz ou infelizmente, ou se por obra do acaso, se por ironia do destino ou quê, desafortunado, nasceu na periferia.  Fato é que o lírio nasce no pântano e é uma flor cândida e esplêndida. Bem que o filho de Chapeuzinho poderia ter nascido em berço esplêndido, de família abastada. Mas sabe-se lá como são os desígnios da natureza.  O seu anjo da guarda sempre lhe dizia:
      - Você deve estudar. E estudar. E estudar. E comer livros, e ser um rato de biblioteca. 
       - Mas esse termo "rato de biblioteca", meu anjo, hoje está em desuso...  
       - Então seja um rato de computador e fera da internet, pois pode-se muito bem pesquisar e estudar pela internet.  Ferramenta ótima para quem quer projetar-se na vida profissional.
      - Mas como, dona fada, se eu não tenho dinheiro ? ? ?
      - Chá comigo, que eu pago.
      - Paga ???  Incrível, mas isso só acontece em contos de fadas ? ? ?
      Uma esperança suprema e única na vida de Jana veio a ser o filho. Não obstante ser filho de quem era, de pai desconhecido, o rapaz esmerou-se em estudar e formar-se.
(continua...  ainda em construção)
 
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