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Sebastianismo à brasileira
Membros de uma seita provocaram carnificina no sertão
Por: Claudio Suenaga e Pablo Mauso
Chamado de rei, João Ferreira mandou matar mais de 200

 Era 14 de maio de 1838. Os homens em questão, tanto os assassinos quanto os mortos, eram seguidores de uma seita conhecida como Pedra do Reino ou Pedra Bonita. O episódio, o mais trágico e sangrento dos movimentos sebastianistas brasileiros, inspirou grandes romances de José Lins do Rego, Pedra Bonita, e de Ariano Suassuna, A Pedra do Reino - este, aliás, ganhou os palcos de São Paulo numa montagem teatral. Apesar disso, permanece desconhecido.

O sebastianismo é um movimento místico português iniciado no século 16, que pregava que o rei Sebastião, morto numa batalha, voltaria para ocupar o trono. No Brasil, esses ideais foram incorporados no sertão nordestino - inspiraram até Antônio Conselheiro em Canudos.
A história da Pedra do Reino começou dois anos antes da carnificina, em Villa Bella, comarca de Serra Talhada. Um dia, um rapaz de nome João Antônio Vieira dos Santos afirmou que dom Sebastião habitava um reino encantado perto de um local conhecido como Pedra Bonita.

Em suas pregações, angariou dinheiro dos seguidores e montou um acampamento no tal lugar mítico. Conhecido como Primeiro Reinado da Pedra Bonita, foi marcado por discursos fanáticos e idéias contra o poder e a propriedade privada. As autoridades não gostaram e expulsaram João Antônio de lá.
Dois anos depois, outro homem, João Ferreira, que dizia ter visões de dom Sebastião, assumiu o lugar de João Antônio e continuou a arregimentar pessoas para seu acampamento. O Segundo Reinado da Pedra Bonita teve mais de 300 moradores. A vida nele era um tanto bizarra. Os habitantes passavam o dia embriagados e fumavam uma erva alucinógena para "entrar" no reino de dom Sebastião.

A matança aconteceu pouco após João Ferreira anunciar que, numa visão de dom Sebastião, este afirmava que o sangue dos seguidores o traria de volta. A polícia soube do ocorrido e mandou 60 homens a Pedra Bonita. Houve um enfrentamento entre eles e os seguidores - e mais 22 mortes. O criador da seita, João Antônio, acabou morto.
 
 Morte e vida sebastiana
Poucas batalhas foram tão mal digeridas como a que aconteceu no dia 4 de agosto de 1578, no norte do Marrocos, em Alcácer-El-Quibir. Ali, mais de 17 mil guerreiros portugueses e espanhóis estavam a mando do jovem e inexperiente rei português dom Sebastião, então com 24 anos.
Desde que assumira o trono, aos 14 anos de idade, ele tinha um único desejo: combater os muçulmanos e destruir o Islã. Decorridos 10 anos de custosos preparativos, partiu capitaneando uma frota de 800 navios. Suas forças, que pareciam invencíveis, acabaram implacavelmente destroçadas pelas de Abdel-Malik - o que culminaria na dominação de Portugal pela Espanha por 60 anos. Dom Sebastião, penúltimo soberano da Casa de Avis, foi dado como desaparecido, juntamente com seus principais oficiais e conselheiros. Seu corpo não chegou a ser identificado dentre os que sucumbiram.
Traumatizados, os portugueses, para compensar a perda, começaram a alimentar a crença de que ele não morrera: dizia-se que havia sido levado para a Ilha das Brumas e ali fora encantado por algum feiticeiro mouro, mas que um dia retornaria à frente de seus soldados para restaurar a grandeza do Império Lusitano e libertar seu povo - e com ele trazer a felicidade para todos os homens.
As lendas criadas em torno do rei morto, invocado como um messias a cada dificuldade surgida, chegaram ao Brasil trazidas pelos imigrantes, fazendo nascer, principalmente no sertão nordestino, vários focos de ardorosos defensores do sebastianismo.
O primeiro movimento sebastianista brasileiro aconteceu em 1817, em meio ao turbulento período da Revolução Pernambucana e a chegada, nove anos antes, da família real portuguesa ao Brasil. Nessa época, o ex-soldado Silvestre José dos Santos, tendo ao seu lado o ajudante Manoel Gomes das Virgens e ao seu redor doze pessoas que desempenhavam a função de apóstolos, fundou a Cidade do Paraíso Terrestre na Serra do Rodeador, a 180 km de Recife. Segundo ele, quando o número de fiéis atingisse a cifra dos mil, dom Sebastião regressaria da Ilha de Brumas e organizaria um exército para libertar Jerusalém e assim estabelecer um tempo de fartura, riqueza, perfeição e imortalidade.
Silvestre José dos Santos incorporou elementos novos às antigas modalidades populares da crença sebastianista do período colonial, combinando aspectos particulares da religiosidade popular sertaneja a rigorosas formas de disciplina e organização moral e militar. Dos cerca de 400 adeptos que conseguira reunir, mais da metade morreu atacada por uma força militar enviada pelo governador Luís do Rego, que depois mandou incendiar o arraial.
A vida no reino encantado
A vida no Segundo Reinado da Pedra Bonita era um tanto estranha. Com certa freqüência, os seguidores se reuniam num local chamado Casa Santa para fumar uma "erva santa" e beber um vinho fabricado pelo "rei", uma mistura de jurema e manacá - de uso corrente em rituais indígenas de pajelança para fazer feitiços e curar mordeduras de cobra -, antecessor remoto do Santo Daime. Os efeitos eram os do álcool e do ópio combinados, induzindo a estados alterados de consciência. Segundo eles, assim podiam penetrar no reino de dom Sebastião.
Grupos de fanáticos saíam diariamente à "caça" arrebanhando homens, mulheres, meninos e cães. No acampamento se comia pouco, ingeria-se altas doses de bebidas estimulantes e alucinógenas, dançava-se. Não era permitido nenhum cuidado pessoal, nem mesmo higiene. Era também terminantemente proibido deixar o local - só os que mereciam toda a confiança do "rei" é que tinham permissão de sair em busca de alimentos.
Nas manhãs de domingo, o "rei", com uma grande coroa na cabeça, pregava insistindo no fato de que seu antecessor - aliás, seu cunhado João Antônio - encontrava-se no Cariri recrutando mais gente e que quando retornasse restauraria de vez o Reino Encantado regando todas as suas pedras com sangue. 

 

 
 



Num acampamento em pleno sertão pernambucano, 17 homens, de repente, sacaram seus facões. Com eles, executaram mulheres, velhos e crianças. Outros, num estado de descontrole, seguiram o exemplo. Assassinaram seus próprios pais, filhos e esposas. Usaram o sangue para lambuzar duas torres de pedra, marcos do acampamento. As mesmas pedras serviram para quebrar o crânio de crianças. Mais de 200 pessoas foram mortas.

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