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Não deixe a esperança morrer
 
 Não adianta tentar confortar. É uma dor lancinante, indizível, inexprimível, incomensurável, medonha e atroz, inaquilatável e recidiva, amarga e sufocante, incontornável, inaceitável, insossa.  E isso ainda diz pouco. Os pêsames têm sabor de fel.
            Dizem as más línguas que a esperança é a última que morre. Pois eu acho que a minha entrou em coma há uns três anos, quando eu comecei a sentir os primeiros sintomas de depressão. O fio condutor desse dilema foi uma série de telefonemas, iniciando com um telefonema de uma de minhas irmãs. Era a minha esperança que se esvaía, que estava morrendo aos poucos, sem ninguém notar. Os acontecimentos, nesses anos todos, após aquele primeiro telefonema foram se atando, um a um,  e se fortalecendo para dar o golpe final e fatal na minha esperança.  E começou, creio, a desmoronar-se o meu castelo.
             Aquele telefonema... Mas qual esperança?  Até então eu estava trabalhando e viajando a trabalho e lazer, e estava tudo bem. Com minhas filhas e filho, tudo bem. Meu relacionamento com meus parentes e aderentes, nada mal.  Zangado com a mãe?  É, e desapontado..., mas estava começando a tentar me reaproximar dela e a manter as boas relações, mas arredia - coisas do coração; então tudo bem. Morava num AP de 60 m², alugado, nada mal !  Na verdade tudo ótimo!  Brilhava a esperança de que tudo ia ficar bem, de que tudo seria possível. Uma esperança que eu acho que toda pessoa equilibrada emocionalmente tem. Mas a minha estava morrendo... Estava em estado comatoso. Antes ficasse no seu estado latente, onde a gente nem percebe que ela existe; mas foi-se esvaindo entre meus dedos, qual água.
A esperança...  a esperança e a confiança de que tudo ficaria bem, e como dizia um amigo meu: “No final tudo acaba bem. Se não está bem, é porque ainda não é o final. Afinal não é o fundo do poço"  E eu costumava acreditar nisso. Mas havia já vinte anos que os telefonemas me tinham deixado em estado de alerta e de pânico ! Mal sabia eu que aquele seria apenas um dos telefonemas !
               Aquele telefonema me deixou tal qual um zumbi, como que nocauteado... Não podia acreditar no que ouvira – uma doença feia acometera meu outro coração, meu irmão gêmeo...  Mas a pergunta é ‘quando é que as coisas iam bem de fato?’ Resposta: Não sei, mas vou declarar o dia em que ficaram realmente feias: o dia  29 como o último dia da minha esperança intacta. Dia 29 de outubro de 2007. O CA havia voltado com tudo, não havia mais chance alguma de meu outro coração sobreviver.  Se digo meu outro coração é porque era realmente uma parte de mim, não o meu rim, mas uma parte figadal –  Meu irmão gêmeo morrrera... Gente !
              Depois fui a um médico amigo meu e ele me enviou a uma psicólogo para fazer terapia; ele, porém não imaginava nem mensurava a imensidão do que eu realmente havia perdido.  Meu outro coração morrera.  Morrera sim, mas não deixou de existir. Mas com o passar dos dias, o decorrer dos meses, comecei a me sentir algo melhor, mas alguma coisa ainda me faltava. Mas o quê?
             Depois de um ano procurando no meu íntimo descobri o que eu havia perdido e o que eu deveria procurar:  A esperança.  A esperança de que a vida pode dar certo, de que apesar dos pesares as coisas vão bem e de que ocorrem fatos inesperados em nossa vida, mas mesmo assim a vida continua e flui como as águas de um rio,  e que a gente sempre encontra um caminho, nem que seja um atalho, e que tudo vai melhorar.  Em março de 2008 eu e a Re compramos um AP em Goiânia e um raio de sol começou a brilhar após um longo e tenebroso inverno.
              Turbulência em julho. No meio do ano de 2008 minha filha é internada em estado de coma diabético e levada às pressas ao hospital pelas asas de um anjo provedor.  Mas isso é uma outra história, um capítulo à parte.
                Eis que de chofre, em novembro - novamente um telefonema - recebo a notícia de que meu irmão caçula estava internado em estado de coma, vítima de acidente de moto. Oh Deus !. Nem bem um ano após um choque, outro choque, outro trauma. O segundo choque sobre minha primeira ferida !
               O "macaco" era a nossa alegria, a alegria da família Pimentel, o irmão figadal do Valter.  Companheirtos de piadas e festas nas tertúlias de domingo.  O "macaco" gente, esse sim não podia viajar logo de um ano e dois meses após o Edivaldo haver embarcado com Caronte rumo aos Campos Elísios !  Que sina !  Não bastasse o fato de o Edivaldo haver deixado a Lívia, 5 anos,  eis que Israel o acompanha deixando a Karina ainda criança, 3 anos !  Para onde foi a minha esperança ? Para onde terá voltado a sua face ?
No mês de abril então entrei em gozo de licença-capacitação no meu emprego para, não necessariamente capacitar-me na PF, mas sim para colocar, ou pelo menos tentar, reencontrar o meu norte.
              Mas para culminar e sangrar mais ainda a minha ferida a amarga caneta-bisturi de um “colega” de trabalho me põe a nocaute. Mas isso também é uma outra história, outro capítulo à parte.
E agora...  E agora, José ?  José, você é duro.  Estou curado da depressão?  Não. Mas antes eu estava pensando se eu estaria de novo solto no mundo, meio sem rumo. Só que agora tudo mudou, eu tenho um objetivo, sei o que vou procurar: A minha esperança que foi tão espancada nos últimos anos, que até sumira, não voltou nem retornou senão quando a poeira havia baixado. E eu estou feliz. Agora eu tenho esperança que vou encontrar a minha esperança e tenho a esperança e a firme convicção de que vou sair por completo da depressão.
             Eis que no meio do caminho tinha uma pedra, tinha um projétil meio do caminho.  Nunca me esquecerei daquele momento, daquele momento que ficará guardado não nas retinas dos meus olhos, mas nas membranas dos meus tímpanos -  noite de 04 de junho de 2009.  Aquele telefonema do Valdiney me deixou aturdido a princípio, mas me deixou tal qual um zumbi ao final, como que nocauteado... Não podia acreditar no que ouvira – o Valter, meu irmão, meu herói, um bravo,  uma fortaleza, um guerreiro, um Pimentel, o último dos Asterix  fora derrubado por um projétil proveniente de um ser abjeto, de um verme,  um vil traficante.  E deixou para trás o Vinícius, de dois anos !
            No dia 04 de junho o meu mundo se turba, enegrece e começa a desmoronar-se a minha esperança e a ruir de vez o meu mundo. Não sei se minha esperança ficou enroscada e presa junto à borda da Boceta de Pandora, evitando que eu sucumbisse de vez às dores e sofrimentos; mas dessa vez a morte vencera a batalha -  O meu irmão e policial civil Valter perdera uma batalha e jogou a toalha naquele dia, no dia 05 de junho de 2009, ao meio-dia. 
  E fiquei sozinho a comandar a nave.
             Oh dor !  Os passarinhos cantam, as borboletas folgam.  Mas por que cantam e folgam se eles não mais vivem ? Não vejo sentido nesse cantar, nesse folgar !
Caminha, José...  Para onde ???  Para quê ???

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