Nosso compromisso é fazer com que crianças e adolescentes se interessem pela literatura e cresçam em caráter, aliado ao conhecimento.

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A GATA BORRALHEIRA de hoje

Era uma vez,  um pai muito bom e amoroso, cuja mulher adoeceu. Essa mãe, também boa, religiosa e piedosa, sentindo o fim aproximar-se por causa de uma doença terminal muito feia, chamou a sua única filha à cabeceira do leito e disse-lhe com muito amor:
- Querida filha, continua sempre boa e estudiosa. O amor de nosso Deus há de acompanhar-te sempre e eu lá do céu velarei sempre por ti. 
Deu-lhe uma série de conselhos e, fechando os olhos, expirou.
A mãe era de classe média, porém descendia de uma família de discriminados socialmente que, para chegar até onde estava, enfrentara muitas barreiras.  Membro de uma família de catorze irmãos, quando menina morou em uma cidade grande, numa  invasão (eufeminsmo para favela)  com seus pais, pois o aluguel era caro.  Alguns anos depois a família foi agraciada com uma casa popular financiada por um programa habitacional do governo. Sua mãe foi uma das primeiras moradoras desse conjunto popular daquele país.  Mas não porque tivesse ascendentes pobres tinha que necessariamente se conformar com tal situação. Isso não. Por esse motivo sua mãe batalhou e trabalhou e lutou e suou muito até chegar onde estava, para poder dar à sua filha condições a que galgasse melhor posição na vida.  Trabalhadora,  proba, íntegra de caráter e temente a Deus,  procurou durante sua curta existência passar à filha tais valores.  Eis o retrato da mãe que ora descia à campa fria e que a  filha tentaria levar  como a melhor lembrança.
           A nossa menina, durante o luto,  ia todos os dias para junto do túmulo da mãe,  a chorar,  e continuou boa e estudiosa.   Passou-se uma primavera, veio o verão, e logo após o inverno, e logo outra primavera. O tempo passou , passaram-se muitas primaveras e a menina virou moça,  uma gatinha.  Nesse ínterim, s
eu pai casou-se com uma mulher que, se não era tão boa ou melhor quanto sua mãe,  pelo menos era diligente e atenciosa com a enteada, no dizer popular - uma boadrasta, se é que existe tal termo. Se não existe, eis um neologismo a la Guimarães Rosa. 
Mas caráter não é um traço humano hereditário; e também não provém de berço, é algo intrínseco do ser humano.  Essa mulher  tinha duas filhas tão invejosas, mal humoradas e ruins em tudo, razão por que eram feias.  Eram, isso sim, mal amadas. Recalcadas. Mal se cruzaram os olhares delas com o da pobre órfã, esta percebeu imediatamente que nada de bom poderia esperar delas, pois logo que a viram disseram-lhe com desprezo:
- O que é que essa moleca está nos olhando ? Vai para a cozinha, que é lá o teu lugar!!!
E a boadrasta corrigiu:
- Minhas, filhas.  Não é por aí.  Diante de Deus todos somos irmãos. Ela será nossa filha,  e irmã de vocês para ajudar a ganhar o pão e lutar pela vida.
Mas às admoestações da mãe não foram levadas em conta pelas suas meio-irmãs.   A menina foi humilhada. Tiraram-lhe os seus lindos vestidos que a sua mãe lhe presenteara, vestiram-lhe um vestido muito velho e deram-lhe um par de botas surradas para calçar.  E, como só tinha esse par de botas para sair, apelidaram-na de GB - A Gata de Botas.  E GB colou.
- E agora já para a cozinha,  GB ! - disseram elas, rindo.
  E a partir desse dia a menina passou a trabalhar arduamente, desde que o sol nascia até altas horas da noite: ia à panificadora logo cedo comprar pão, ao chegar preparava o café da manhã, levava o cachorrinho de estimação a passear, lavava a louça, cozinhava, lavava a roupa, costurava e limpava a casa. Não que seu pai ou a mulher dele a obrigassem a tal, mas sim o fazia por livre vontade, para ajudar a ambos que saíam cedo a trabalhar. 
Sem o saber estava se tornando uma moça prendada,
À tarde ia à escola. E as outras, preguiçosas, só na vida boa. Assistindo TV.  Certo é que frequentavam um cursinho de inglês, mas não se empenhavam,  só sonhavam em fazer cursos no exterior, como se o aprendizado de uma língua estrangeira ocorresse por osmose, e alguém abrisse um tampo em suas cabecinhas duras e  jogasse lá dentro um balde cheio de palavrinhas e expressões.   Com GB não era assim.  Não querendo ser pesada financeiramente para os pais, dispôs-se a aprender duas línguas estrangeiras de forma autodidata. Pela internet.
À noite, extenuada de tanto trabalhar e estudar, não se podia dizer que não tivesse uma boa cama para descansar. Tinha sim, mas  no seu quarto não havia um televisor ou aparelho de DVD, para se distrair - isso ficou no quarto das outras.  E o fato de não possuir  aparelhos eletrônicos em seu quarto, ao invés de ser algo ruim, tornou-se em algo bom para GB. Não ficava entretida diante dessa babá eletrônica. Quando muito ouvia música. E lia.  E estudava.
      Os dias se passavam e a sorte da menina não se alterava nas mãos de suas algozes. Pelo contrário, as implicações das suas meio-irmãs eram cada vez maiores.
  
Um dia, quando o pai viajou de férias à Europa, perguntou às duas enteadas o que queriam que  lhes trouxesse de presente.
- Lindos vestidos - disse uma.
- Um colar de ouro - disse a outra.
- E tu, filhinha,  o que queres? - perguntou-lhe o pai.
- Alguns bons livros, de bons autores, e um dicionário. Podem ser usados.
GB não queria ficar sob a dependência financeira do pai, pois tinha caráter e dignidade para não ser-lhe pesado nesse aspecto, nem ser chupim a vida toda.  Terminada a viagem, ele comprou um colaros vestidos para as enteadas e,  para a filha, alguns livros e um dicionário.
Ao chegar em casa, deu às enteadas o que lhe tinham pedido e entregou à filha os livros pedidos.  De posse do livro ela correu para junto de uma escrivaninha e abajur e pôs-se a ler e estudar. Tanto lia quanto crescia e aprendia. Começou a crescer e a aprender e tornou-se uma bela adolescente; outras diriam, nerd. A internet era um instrumento espetacular para sua pesquisa, formação e informação. 
 .
Tímida,  foi assim que lendo e estudando, talvez como um mecanismo de defesa e rota de fuga, GB conseguiu, de forma autodidata, ser exímia e fluente em duas línguas estrangeiras. Sua boadrasta pagou-lhe um curso de informática e deu-lhe um notebook; para as filhas pagou uma viagem à Disneylândia. GB sabia que a boadrasta era boazinha, não a discriminava, mas as filhas não lhe tinham herdado o caráter; e caráter não é herança biológica.
A menina continuou a visitar o túmulo da mãe todos os dias e certa vez parecia ainda ouvir no ar os conselhos da mãe:
- Não chores nem te desanimes com a ingratidão humana, minha querida. Lembra-te que o estudo a a formação profissional são o passaporte de independência da mulher moderna.
  Por seu turno as meio-irmãs só pensavam em namorar e sair na balada. Uma até abortara certa vez. Mas elas só sonhavam com namorados ricos, pensavam em carros e motos e construíam castelos e viagens. Não estudavam, só queriam saber de curtir a vida.
Certo dia o pai  anunciou a todos que iria dar uma festa dos quinze anos da filha,  uma festa durante três dias para a qual estavam convidadas todas as jovens amigas. Imediatamente as duas filhas da madrasta chamaram a Gata Borralheira e disseram-lhe:
- Penteia-nos e veste-nos, pois temos que dançar e ficar bonita nesse  baile. Pode ser que um rapaz rico e bonito venha escolher qual de nós duas será a sua namorada.
E sempre lhe vinha à cabeça o conselho da mãe:
 
“filha querida, o teu marido é o teu emprego”
Tem em mente que se quiseres ser pelego
Serás também sela, loro e estribo
Sê  casta, ouve o que eu digo"
 
Mas, como a tentação é grande, a carne é fraca e ninguém é de ferro,  não era uma personagem  redonda e lisa como uma bola de cristal. Não.  Tinha lá, como todo mortal, as suas crises e achaques, as suas neuras e depressões e descontrole emocional.  GB fraquejou, arranjou um rapaz e apaixonou-se perdidamente. Um "mala" , no jargão popular, malandro e tanto. E se perdeu. Estava na flor da juventude. E com 1.6 de idade já não era mais zero quilômetro.   Viveram um affair caloroso que durou três longos anos e alguns telefonemas, até que GB soube por que é que paixão é inversamente diferente de amor.  Soube que seu noivo estava de caso com uma de suas melhores amigas.
 Aquilo foi como um balde d'água bem gelado nas pretensões  matrimoniais e na paixão fogosa de GB.   Que triste sina. Que desdita.  Ficou amargurada, deprimida, pensou em tanta besteira e fiicou descrente de tudo e de todos. Não havia palavras que pudessem exprimir e mensurar o seu desencanto. Mulher de palavra e determinação não podia tolerar tal acinte.   E terminou o noivado.
 
Como um grilo falante em sua consciência, a voz da mãe retinia:
 
Não te fies na beleza do rosto e atributos corporais
Como a flor mais bela, a beleza murcha nos mortais".
“Minha filha, nunca, jamais confie em amigas;
mulheres amigas, caminhão de intrigas
nos homens, tampouco se deve fiar
Há um só em quem confiar plenamente: DEUS".
 
E de novo GB recomposta da desilusão, retornou a si e recomeçou a ler livros, tornando-se uma ratazana de biblioteca. Ficou enclausurada e num ostracismo tal que passou logo no primeiro vestibular e ingressou em uma faculdade pública. As meio-irmãs, em contrapartida,  só namorando, curtindo a vida e saindo na night, pois, segundo diziam, já tinham mais de dezoito anos, eram maiores de idade e independentes.   Prazeres efêmeros.
Buscar urgentemente uma formação, uma profissão e um emprego – isso sim é independência, pensava GB.  
E como o tempo voa, formou-se.  E as irmãs ?  murchando, ficando decrépitas e só pensando em ter filhos. Mas GB  ainda não podia dar-se ao luxo de sonhar com um carro. E de novo a voz da mãe, como a voz de um grilo falante, cricri:
 
“Minha filha, um carro e tão caro e dispendioso como um filho”
 
Enfim, seu primeiro emprego (seu primeiro marido).  Agora sim poderia trocar de marido sem peso de consciência e escolher o melhor pra si, caso este viesse a desapontá-la.  Fez um concurso público obtendo um plano de saúde espetacular. Agora sim poderia sonhar com as viagens que tanto queria e com férias dignas.
E como já tinha um marido bom, ou seja o seu emprego, lembrou-se do que sua mãe dizia:
“Quem casa, quer casa” 
E começou a fazer uma poupança com seu primeiro salário, pois só no dicionário diversão vem antes de estudo e trabalho.  Daí pra frente foi um pulo. Um salto. Já não era mais GB, e sim PhD.

A princesa.
Aqui abrem-se os parênteses para o leitor/a, potder enviar sua sugestão e dar continuidade à estória.... PODE ESCREVER, CARO LEITOR/A

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