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As perdas de uma mãe

A mãe do policial morto num confronto com o traficante Japonês já tinha perdido dois filhos nos últimos meses

Marcelo Elias/Gazeta do Povo / Eulália Pereira Pimentel: vazio no peito e na sala de estar deixado pela perda de três dos 13 filhos 

Dona Eulália Pereira Pimentel: vazio no peito e na sala de estar deixado pela perda de três dos 13 filhos

Publicado em 28/06/2009 | Mauri König

Dona Eulália ainda não recebeu o presente do Dia das Mães deste ano. E nem tem mais ânimo para isso, não só porque a data já passou há dois meses. Não há mimo capaz de trazê-la de volta à vida depois dos últimos acontecimentos. Embora atrasado, o filho dileto entregaria o embrulho no último dia 7, no habitual almoço de domingo, mas morreu três dias antes numa troca de tiros com traficantes. Foi a terceira de uma sucessão de perdas que já havia estragado os Natais e os finais de ano da família Pimentel. Num intervalo de 20 meses, a aposentada de 78 anos perdeu um filho para o câncer, outro num acidente de trânsito e o terceiro com uma bala no peito.

Eulália Pereira Pimentel teve 13 filhos, dos quais três pares de gêmeos, Valter entre eles. Homem de uma profissão só, Valter entrou na Polícia Civil aos 19 anos e só saiu dali morto. Ser policial era um sonho de menino e a mãe se desdobrou na faxina de uma escola pública para vê-lo realizado. Fazia planos de se aposentar no ano que vem, para ter mais tempo para a família, comprar um barco e pescar no Pantanal. Ou quem sabe montar um restaurante para dar vazão à habilidade culinária da irmã Terezinha. Sonhos interrompidos na noite do dia 4 por uma bala certeira durante a tentativa de captura do traficante Hiroshe de Assis Eda o japonês.

Álbum de família

Álbum de família / Valter pretendia se aposentar logo

 

 

Valter pretendia se aposentar logo

Dona Eulália sofreu dois acidentes, embora nenhum tenha sido mais doloroso do que a perda dos filhos. No primeiro, há 20 anos, foi atropelada, teve a perna reconstituída com platina, mas uma ficou mais curta do que a outra. Há oito anos, a porta de um ônibus se abriu com o veículo ainda em movimento, enroscou a touca dela e a lançou para fora. Dona Eulália quebrou o braço esquerdo e nem as 11 cirurgias e o enxerto de platina do ombro ao punho impediram a perda dos movimentos da mão. Passou a tomar remédios, e cada vez com mais frequência à medida que ia perdendo os filhos.

Dona Eulália já havia perdido dois, mas não numa sequência tão rápida e traumática. Edivaldo um dos primogênitos, gêmeo de Edimilso Pimentel, morreu de câncer no intestino em 28 de outubro de 2007, às vésperas de completar 50 anos. Um ano depois, em 23 de dezembro de 2008, Israel, supervisor da Guarda Municipal, morreria num acidente de moto. Nos dois casos o tempo ajudou a família a se preparar para o pior. Edivaldo passou um ano em tratamento, a maior parte no hospital; Israel ficou um mês em coma, período em que completou 42 anos. As duas perdas, próximas do Natal, interromperam as habituais confraternizações de fim de ano da família no litoral do estado.

Dona Eulália teve um baque maior na morte de Valter. A notícia chegou pelo rádio. Terezinha ouvia o noticiário quando, por volta das 22h45, ouviu o nome do irmão citado como um dos feridos num tiroteio no centro de Curitiba. Correu à casa ao lado para avisar a família, que de início duvidou. “Como é que a gente vai dar a notícia para a mãe?”, pensou ela. Os hospitais não forneciam informações por telefone, mas logo a rádio confirmaria a notícia. A essa altura o peito de Eulália já se comprimia numa sensação indizível. Valter morreria na manhã seguinte, antes mesmo de a mãe conseguir visitá-lo no hospital.

Dona Eulália, que já não se alimentava muito bem desde a morte dos outros filhos, também ficou mais calada e passou a não dormir direito. Não haveria mais os sagrados encontros de domingo, quando Valter tinha o hábito de passar na casa da mãe antes dos costumeiros passeios com o filho, de 2 anos. Pai de duas moças já criadas, ele só realizou o sonho de um filho varão na maturidade. Foi sobre o caçula suas últimas palavras a caminho do hospital. Não queria ver interrompidos o sonho de criar o filho e assistir aos jogos da Copa do Mundo de 2014. Torcedor fanático, fazia parte da torcida organizada do Clube Atlético Paranaense.

Dona Eulália pouco fala desde então. Consola-se na imagem de herói. “Ele morreu lutando para proteger a sociedade, que nem sempre valoriza a polícia”, diz Terezinha. Era o orgulho, o protetor, a âncora da família, sobre a qual exercia forte influência. Foi por incentivo dele que a sobrinha Luana ingressou na faculdade de Direito, curso que a filha mais velha, Gleicy, já concluiu e a mais nova, Samantha, está prestes a concluir. Os sonhos de Valter continuam vivos nos netos, bem sabe Eulália, mas não há o que a faça aceitar a morte do filho. Se para ela já não eram os mesmos os finais de ano, agora não são os mesmos os domingos e não serão os mesmos os Dias das Mães.

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