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DOM CASMURRO – um triângulo amoroso ?

 

       ESCOBAR

     BENTINHOCAPITU

          ESCOBAR

       BENTINHOCAPITU

 Bentinho, alcunhado de Dom Casmurro por um rapaz de seu bairro que o encontrara em um trem, já velho, decide, dividido e premido por remorsos do coração, preencher sua solidão atual, escrever um romance autobiográfico e atar neste as duas pontas de sua vida, unindo a velhice à adolescência. Rio de Janeiro, novembro de 1857.

Saudosista do tempo de sua juventude, em crise existencialista, sempre relembrando e rememorando os fatos e acontecimentos, pintará, com matizes próprias, a partir de seu ponto de vista unilateral, carregado de parcialidade, e em primeira pessoa, a imagem de sua ex.  Portanto, o foco narrativo condutor do romance é feito em primeira pessoa, na ótica de Bentinho, o qual narrará, em flashback, a sua história. Convém frisar que nas batalhas da vida quem conta a história será quase sempre o vencedor, jamais o perdedor.  Capitu e Escobar, aqui, não têm voz, não têm, ambos, direito a uma defesa ampla. Foram sepultados inapelavelmente, sem pena, pela pena do algoz. Ao final Ezequiel também será eliminado.

Interessante lembrar, e digno de nota, é que as duas casas de Dom Casmurro, nesse caso de Bentinho, a antiga e a nova, formam um elo entre o passado e o presente, amarram-se em um nó cego – a do Engenho Novo (significa vida nova) e a de Mata-cavalos (significa morte, passado). Estas construções formam dois espaços tênues e frágeis, tentativa infantil do narrador-autor de atar as duas pontas da vida, como que a  querer reconstruí-la, e redimir-se, e que faz interessante a estrutura e trama de Dom Casmurro.

Capitu, olhos de cigana -  figura fascinante, enigmática e misteriosa. Traduzindo: safada, pérfida, sem-vergonha, lasciva, leviana . .

 

Capitu[1], a heroína do romance tinha, na descrição do autor, os olhos de cigana, olhos enganadores, misteriosos, era dissimulada e estranha. Seria um olhar de cobra venenosa, fatal. Capitu, sujeito passivo na ótica de Bentinho, tinha uns olhos como que de uma vaga, que chama e atrai, que suga e convida a infiltrar-se e explorar-lhe o íntimo, olhos fantásticos, enfeitiçadores, seria como ingressar e explorar uma caverna escura e perscrutar seus mistérios. Assim, afetado e afogado profundamente por aquele olhar, Bentinho deixou-se levar pela vaga e pela imaginação, deixou-se emprenhar pelos ouvidos ao dar crédito a José Dias.

O projeto inicial de vida que D. Glória, mãe de Bentinho, viúva, havia feito sobre o filho era claro -  interná-lo em um seminário e fazê-lo padre, por força de um voto que fizera.  Bentinho, cujo nome completo era Bentinho Santiago, de família abastada, tinha como vizinha e amiga de folguedos a Capitolina, conhecida como Capitu, e morava num casarão na Rua de Matacavalos.

Nessa casa de Matacavalos morava também José Dias, um agregado. (fila-bóia)  Porém, ao contrário do comic Grilo Falante, companheiro sábio e bem humorado de Pinóquio, José Dias atuará como a consciência desconfiada de Bentinho e lhe suscitará dúvidas no tocante às reais intenções de Capitu. E fará as vezes de Iago, de Shakespeare. O romance ainda é composto pelas personagens Tio Cosme, advogado e viúvo, além da prima Justina, que também era viúva. Pádua, pai de Capitu, e sua mãe, Fortunata, pobres, são personagens de pouca relevância, como irrelevante é o nome do pai de Bentinho.

Depreende-se da dissecação do romance que D. Glória, beata e papa-hóstias, mãe de Bentinho Santiago, pôs-lhe esse nome, quem sabe, para fazer do filho o mais santo dos santos, visto que Bentinho significa benzido, abençoado. E Santiago é a fusão de Santo+Iago. Porém, fracionando-se e desmembrando o nome ‘Bentinho Santiago’ notaremos a fragilidade e infantilidade do narrador-personagem pelo diminutivo que lhe foi acrescentado - Bent +“inho” e pela fusão do bem e do mal, em Santiago. Portanto, Bentinho será o Otelo, infernizado pelas dúvidas e roído pelos ciúmes ao longo do romance. José Dias, Iago.

Assim o nosso Bentinho vai, a contragosto, para o seminário, porém já ali entra com os olhos voltados para trás, para a porta de saída, ansiando sair  dali o mais breve possível. Motivo: estava enamorado de Capitu. No seminário Bentinho faz uma grande amizade com Escobar, amizade esta que é estendida a Capitu por força das confidências.  Nesse comenos, Escobar usa de um expediente convincente e consegue dobrar o voto de D. Glória fazendo-a substituir Bentinho, no seminário, por um órfão.

Ao sair do seminário, Bentinho forma-se em Direito e casa-se com Capitu.  Escobar, ao sair do seminário, também casa-se, com Sancha. A estes lhes nasce uma filha, a quem deram o nome de Capitolina, for força da amizade entre o casal. Tempos depois, nasce o filho de Capitu, a quem lhe dão o nome de Ezequiel, em homenagem e gentileza a Escobar, amigo do casal, cujo nome completo era EzequielEscobar.

Será que o filho de Capitu não seria fruto da relação adúltera entre Escobar e Capitu ? Não seria ele filho de Escobar e não de Bentinho?  Tal dúvida é suscitada quando morre Escobar, o amigo íntimo de Bentinho e Capitu.  Durante o velório Bentinho percebe que Capitu não chorava, mas expressava um sentimento fortíssimo em relação ao defunto. Bentinho estranhou o modo como Capitu ficava a contemplar o cadáver e interpreta-o como indícios de aleivosia; e é a partir desse momento e com esses “grilos na cabeça” que começa o drama de Bentinho, o qual se deixa emprenhar pela imaginação.  Será que Capitu manteve um romance extra-conjugal com Escobar ? Bentinho percebe, isso alertado pela própria esposa, que o “seu” filho (?) Ezequiel, o “filho do homem”, tinhas os pés como os de Escobar... até o jeitinho de andar era igual... Todos os trejeitos...  E, para corroborar e aumentar ainda mais as suspeitas, Bentinho lembrou-se que algumas vezes já havia encontrado e flagrado Capitu e Escobar sozinhos, em sua casa. Mas os dois sempre desconversavam e apresentavam um bom álibi.   Que dúvida cruel... Embora confiasse no amigo, que era casado e tinha até uma filha (Capituzinha), o desespero, a dúvida e a desconfiança de Bentinho eram imensos e cruéis. Assim como algumas mulheres sofrem da síndrome pós-parto, Bentinho sofre de síndrome pós-concepção. E não o admite.

Com o casamento abalado, mas tentando solidificá-lo, Bentinho e Capitu viajam à Europa, para ser mais preciso, à Suíça. Bentinho retorna só,  deixando lá Capitu e Ezequiel. Capitu escreve-lhe cartas com uma certa frequência. A essa altura, a mãe de Bentinho e José Dias já haviam morrido.

Certo dia Ezequiel vem visitar o pai e conta-lhe da morte da mãe. Bentinho não é carinhoso com o filho. Pouco tempo depois, Ezequiel também morre, mas as únicas coisas que não morrem, no romance, mas sobrevivem, são as dúvidas e ciúmes, além do protagonista.

Perpassando e analisando a obra do autor, nota-se nesta, a firme intenção do autor, por ciúmes, em imputar a Capitu o crime de adultério. Já de início, os olhos oblíquos e dissimulados de Capitu, nos mostram e demonstram, desde o início, e conforme o narrador nos quer fazer ver, as duas pontas da história da vida de Bentinho. O primeiro beijo em Capitu ocorre mediante a percepção daqueles belíssimos olhos de ressaca, acima descritos. Ainda, segundo o autor, os olhos de Capitu escondiam um quê de mistério. Eram como as vagas (ondas) do mar que, à primeira vista, bonitas e atraentes, parecem calmas e tranqüilas, mas que podem tragar e levar à morte o incauto e ingênuo. Bentinho foi ingênuo em ligar-se a Capitu ?  E seu drama reside justamente no fato do olhar de Capitu durante o velório de Escobar. Sua forma de contemplar o defunto. Os ciúmes, as dúvidas, os cornos (chifres) a lhe crescerem na cabeça.  Será ???  Capitu conseguiu enganar o próprio pai...   Será que o enganara também ??? Teria sido Capitu culpada de adultério ?

Dom Casmurro é um livro complexo e a cada leitura e releitura origina-se uma nova interpretação e novos questionamentos. A riqueza temática desse romance obriga a leitora a uma profunda meditação. Eis a questão e a trama deste romance. Aconteceu ou não aconteceu ? Ao final você decidirá. Capitu é culpada ou inocente ?

 O OLHAR DE CAPITU E A VISAO DE BENTINHO

 Jean Paul Sartre atribui ao olhar lugar de suma importância para a constituição do ser.   É pelos olhos que sentimos e pressentimos o mundo, que avaliamos e atribuímos julgamento de valores,  pois que os olhos são a janela da alma. É pelo ver que imaginamos e concebemos, assim como é pelos ouvir que nós formamos nossas opiniões ?

 

Como a querer enxergar a essência de Capitu, Bentinho penetra-lhe os olhos, perscruta-lhe a alma até a divisão do pensamento e das intenções.  Muitas vezes um simples olhar representa uma linguagem forte, carregada de sentidos, de emoções, foro íntimo da pessoa humana.

E para corroborar que os olhos não são apenas o espelho da alma, mas sim que também refletem padecimentos do corpo, a medicina moderna já faz estudos e elabora diagnósticos com base na íris dos olhos. E, como o romance alude a muitas referências bíblicas, convém ler um versículo da antiga Lei de Moisés, que diz: Não adulterarás – Ex 20.14 Jesus Cristo, no Evangelho segundo Mateus, reinterpretando-a, diz: Eu, porém, vos digo:  qualquer que olhar para uma mulher, com intenção impura, no coração, já adulterou com ela. MT 5.28

Guardadas as devidas proporções no tocante ao gênero humano, o mesmo pensamento é válido para as mulheres que, se lascivas, podem induzir o homem ao erro.  E os pensamentos, imaginações e fantasias, uma vez liberados, são difíceis de controlar. Coisas da alma, coisas do coração...

 E, para não reinventar a roda, eis aqui um

 Estudo e análise, por: NELSON SOUZA*

Depois de um século, "Dom Casmurro" continua gerando polêmica.

 A TEMÁTICA Em rigor o tema abordado por Machado de Assis não é o adultério e sim o ciúme, tão doentio que atinge uma deformação patológica. Capitu é considerada adúltera na ótica de Bentinho que se apresenta como vitima, por isso o romance é uma verdadeira acusação. O ciúme do Dr. Bento Santiago é tão forte que ele não consegue o controle emocional (na morte de Escobar, Bentinho não consegue ler as palavras de despedidas por causa do ódio ao morto e a Capitu).

 FOCO NARRATIVO A polêmica do romance: Capitu é ou não é adúltera está concentrada no foco narrativo de primeira pessoa, pois Bentinho é o personagem que narra sua própria história. Dúvidas existirão sobre a culpabilidade de Capitolina uma vez que o narrador não é confiável. A criação mimada, protetora excessivamente que teve, transformou-o num homem inseguro, de personalidade fraca, por isso Bento pode estar distorcendo os fatos. Tudo nos leva a crer que o narrador pretende única e exclusivamente incriminar Capitu.

 RELATIVIZAÇÃO Em sua narrativa, Bento afirma o adultério, mas é uma acusação inconsistente. A principal prova de que dispõe é a semelhança física entre Escobar, amigo do casal, e Ezequiel, contestada, pois há uma também identidade física entre Capitu e a mãe de Sancha, que nem parentes são. Naquele tempo não havia teste de DNA. Outro exemplo que põe em dúvida o posicionamento de Bentinho é que ele também é um adúltero – pelo menos no pensamento e nas intenções, visto que na véspera da morte de Escobar, Betinho troca inesperados e intensos olhares com Sancha e, na hora da despedida, suas mãos se apertam demoradamente mais do que o normal, levando o narrador a ter um instante de descontrole emocional: é o sentimento de culpa que aflora. E assim o romance segue, cada registro de traição vem à tona o contrário. Num determinado momento, Bentinho condena a esposa, noutro - mais introspectivo - ele se mostra ciumento, atingindo uma paranóia.

 RETRATO DA SOCIEDADE espaço ocupado pelo enredo corresponde à cidade do Rio de Janeiro ao tempo do II  Império, Bentinho é o típico representante da elite patriarcal, morava em um bairro elegante, a família vivia de rendas, era uma pessoa culta e de hábitos sofisticados; quando adulto, era prepotente, brutal e incapaz de estabelecer diálogo com a mulher amada. A presença do agregado José Dias - personagem plana, caricatural, simbolizada pelo seu parasitismo, é uma prova da condição socioeconômica da família Santiago, pois só as famílias abastadas do Brasil imperial possuíam agregados que, de acordo com o grau de instrução, desempenhavam funções diversas inclusive de conselheiro. Dias cuidava de Bentinho com "extremos de mãe e atenções de servo".

 MATERIALISMO Capitu é o avesso social e econômico de Bentinho. Oriunda de família pobre, ela busca a ascensão à custa do casamento, por isso não mede esforços para vencer os empecilhos. O casamento com Bentinho era o seu grande projeto de vida e, para alcançá-lo, enfrenta preconceitos, desigualdades financeiras. Ela adorava sair às ruas de braço dado com Bentinho a fim de que a sociedade visse que aquela menina pobre estava casada com um homem rico. É importante ressaltar o comportamento interesseiro de Pádua - pai de Capitu - o qual sabia que a filha de quatorze anos andava de namoro com Bentinho, mas era conivente, pois este relacionamento lhe traria benefícios: ele um simples funcionário de uma repartição poderia ter como genro um filho de uma viúva rica. Outro exemplo que comprova o caráter materialista do romance é José Dias - personagem hilariante, mesclado de uma dignidade pedante (puxa-saco, gostava de usar superlativos) com uma dedicação fiel de criado. Cumpre esclarecer que a dedicação de José Dias - o agregado - garante sua sobrevivência junto à elite, por isso ele enxerga de que lado deve ficar, por isso ele toma partido do jovem Bentinho, menos por simpatia à paixão e mais por se preocupar com o seu futuro (o agregado sugere a Bentinho uma viagem à Europa para que ele pudesse ir junto).

 AS DUAS FASES DO ENREDO: De acordo com os fatos narrados, o romance apresenta duas fases distintas que correspondem aos momentos básicos na vida dos personagens:

 FASE I - Período da adolescência (1857) - Capitu  14 anos e Bentinho  15 anos - representa a fase mais poética, aqui Capitu se mostra uma pessoa dominadora, tomando toda iniciativa do jogo amoroso ("Como se vê, Capitu, aos catorze anos, tinha já ideias atrevidas")

 FASE II - Corresponde ao período que começa com o casamento entre Bentinho e Capitu (1865). É uma fase mais realista e amargurada, cheia de conflitos, gerados pela incompatibilidade de gênios. Bento desempenha o papel de homem patriarcal, assume o comando do relacionamento afetivo, levando-o à destruição.

ESTILO MACHADIANO

 Ironia e ceticismo - Machado de Assis revela uma visão cética do elemento humano e desencantada da realidade. Os indivíduos agem impulsionados apenas por seus interesses pessoais: vaidade, ambição, sede de poder. Diante destes valores, prefere o autor o sorriso crítico, o humor, não aquele humor engraçado, de provocar gargalhadas, e sim, a ironia sutil que conduz o leitor a uma reflexão crítica. (São exemplos de ironia e humor a erudição de José Dias, a gula do Padre Cabral, o biotipo de Tio Cosme, o comportamento de Bentinho em relação ao poeta do trem).

 Linguagem - Em "Dom Casmurro," Machado utiliza todas as possibilidades de expressão que a linguagem possibilita. Ora o texto é recheado de termos atualíssimos, ora levemente arcaico. Há repúdio à retórica, à metáfora vazia, ao adjetivo banal e aos pormenores descritivos. Usando a técnica dos capítulos curtos e titulados, o narrador-personagem dialoga freqüentemente com o leitor, dando-lhe um cunho de cumplicidade dos fatos, ("Não consultas dicionário. Casmurro não está aqui no sentido que eles lhes dão" - cap. 1, "O resto deste capítulo é só para pedir que, se alguém tiver de ler o meu livro com alguma atenção mais do que lhe exigir o preço do exemplar, não deixe de concluir que o diabo não é tão feio como se pinta" - cap. 92).

NELSON SOUZA é professor de Língua Portuguesa e Literatura pela UFBa, pedagogo pela Feba, professor do 3º ano do UCBA, ISBA

     NOTAS

  (referência ao capeta ?  Pelo menos assim no-lo quer fazer ver o agregado José Dias.)

O nome Iago é derivado do latim Iacobus, que por sua vez é uma latinização do nome hebreu Ya'akov (יעקב) ou Jacó, que significa literalmente calcanhar.  Por sua vez e por analogia, enganador, suplantador. Pelo fato de Jacó haver enganado a Esaú, seu irmão gêmeo e primogênito, comprando-lhe a primogenitura. A aglutinação de dois elementos Santo e Iago  produziu Santiago. Iago, personagem shakesperiana do drama Otelo, é aquele que inculca dúvidas e atiça os ciúmes no general mouro, Otelo, em relação a Desdêmona, fazendo-o desconfiar da fidelidade de sua esposa, levando-o a cometer o crime de assassinato, matando-a.

Ezequiel, nome bíblico e conhecido com o bordão de “filho do homem”.

E disse-me: Filho do homem, põe-te em pé, e falarei contigo. Ez 2.1

 

FIGURAS DE LINGUAGEM

  São recursos que tornam mais expressivas as mensagens. Subdividem-se em FIGURAS DE SOM, FIGURAS DE CONSTRUÇÃO, FIGURAS DE PENSAMENTO e FIGURAS DE PALAVRAS. FIGURAS DE SOM
a) ALITERAÇÃO: consiste na repetição ordenada de mesmos sons consonantais.
                        
“Esperando, parada, pregada na pedra do porto.”
b) ASSONÂNCIA: consiste na repetição ordenada de sons vocálicos idênticos.
                        
“Sou um mulato nato no sentido lato
                        mulato democrático do litoral.”

c) PARANOMÁSIA: consiste na aproximação de palavras de sons parecidos, mas de significados distintos.
                         
“Eu que passo, penso e peço.” FIGURAS DE CONSTRUÇÃO

a) ELIPSE: consiste na omissão de um termo facilmente identificável pelo contexto.
                         
“Na sala, apenas quatro ou cinco convidados.” (omissão de havia)

b) ZEUGMA: consiste na elipse de um termo que já apareceu antes.
                          
Ele prefere cinema; eu, teatro. (omissão de prefiro)

c) POLISSÍNDETO: consiste na repetição de conectivos ligando termos da oração ou elementos do período.
                         
“ E sob as ondas ritmadas
                        e sob as nuvens e os ventos
                        e sob as pontes e sob o sarcasmo
                        e sob a gosma e sob o vômito (...)”

d) INVERSÃO: consiste na mudança da ordem natural dos termos na frase.
                      
“De tudo ficou um pouco.
                      Do meu medo. Do teu asco.”

e) SILEPSE: consiste na concordância não com o que vem expresso, mas com o que se subentende, com o que está implícito. A silepse pode ser:

• De gênero
Vossa Excelência está preocupado.

• De número
Os Lusíadas glorificou nossa literatura.  (O poema Os Lusíadas, de Camões)

• De pessoa
“O que me parece inexplicável é que os brasileiros persistamos em comer essa coisinha verde e mole que se derrete na boca.”

f) ANACOLUTO: consiste em deixar um termo solto na frase. Normalmente, isso ocorre porque se inicia uma determinada construção sintática e depois se opta por outra.
                        
A vida, não sei realmente se ela vale alguma coisa.
g) PLEONASMO: consiste numa redundância cuja finalidade é reforçar a mensagem.
                      
“E rir meu riso e derramar meu pranto.”
h) ANÁFORA: consiste na repetição de uma mesma palavra no início de versos ou frases.
                      
“ Amor é um fogo que arde sem se ver;
                     É ferida que dói e não se sente;
                     É um contentamento descontente;
                     É dor que desatina sem doer”
FIGURAS DE PENSAMENTO

a) ANTÍTESE: consiste na aproximação de termos contrários, de palavras que se opõem pelo sentido.
                    
“Os jardins têm vida e morte.”
b) IRONIA: é a figura que apresenta um termo em sentido oposto ao usual, obtendo-se, com isso, efeito crítico ou humorístico.
                   
“A excelente Dona Inácia era mestra na arte de judiar de crianças.”
c) EUFEMISMO: consiste em substituir uma expressão por outra menos brusca; em síntese, procura-se suavizar alguma afirmação desagradável.
                     
Ele enriqueceu por meios ilícitos. (em vez de ele roubou)

d) HIPÉRBOLE: trata-se de exagerar uma ideia com finalidade enfática.
                     
Estou morrendo de sede. (em vez de estou com muita sede)

e) PROSOPOPÉIA ou PERSONIFICAÇÃO: consiste em atribuir a seres inanimados predicativos que são próprios de seres animados.     
O jardim olhava as crianças sem dizer nada.

f) GRADAÇÃO  ou CLÍMAX: é a apresentação de ideias em progressão ascendente (clímax) ou descendente (anticlímax)
                  
Um coração chagado de desejos, latejando, batendo, restrugindo.
g) APÓSTROFE: consiste na interpelação enfática a alguém (ou alguma coisa personificada).
                   
Senhor Deus dos desgraçados!
                  Dizei-me vós, Senhor Deus!
FIGURAS DE PALAVRAS
a) METÁFORA: consiste em empregar um termo com significado diferente do habitual, com base numa relação de similaridade entre o sentido próprio e o sentido figurado. A metáfora implica, pois, uma comparação em que o conectivo comparativo fica subentendido.  
“Meu pensamento é um rio subterrâneo.”
b) METONÍMIA: como a metáfora, consiste numa transposição de significado, ou seja, uma palavra que usualmente significa uma coisa passa a ser usada com outro significado. Todavia, a transposição de significados não é mais feita com base em traços de semelhança, como na metáfora. A metonímia explora sempre alguma relação lógica entre os termos. Observe:
 Não tinha teto em que se abrigasse. (teto em lugar de casa)

c) CATACRESE: ocorre quando, por falta de um termo específico para designar um conceito, torna-se outro por empréstimo. Entretanto, devido ao uso contínuo, não mais se percebe que ele está sendo empregado em sentido figurado.            
O pé da mesa estava quebrado.

d) ANTONOMÁSIA ou perífrase: consiste em substituir um nome por uma expressão que o identifique com facilidade:
                        
...os quatro rapazes de Liverpool (em vez de os Beatles)

e) SINESTESIA: trata-se de mesclar, numa expressão, sensações percebidas por diferentes órgãos do sentido.
                        
A luz crua da madrugada invadia meu quarto. VÍCIOS DE LINGUAGEM

A gramática é um conjunto de regras que estabelecem um determinado uso da língua, denominado norma culta ou língua padrão. Acontece que as normas estabelecidas pela gramática normativa nem sempre são obedecidas pelo falante.
Quando o falante se desvia do padrão para alcançar uma maior expressividade, ocorrem as figuras de linguagem. Quando o desvio se dá pelo não-conhecimento da norma culta, temos os chamados vícios de linguagem.

a) BARBARISMO: consiste em grafar ou pronunciar uma palavra em desacordo com a norma culta.
pesquiza (em vez de pesquisa)  -  prototipo (em vez de protótipo)

b) SOLECISMO: consiste em desviar-se da norma culta na construção sintática.
Fazem dois meses que ele não aparece. (em vez de faz ; desvio na sintaxe de concordância)

c) AMBIGUIDADE ou ANFIBOLOGIA: trata-se de construir a frase de um modo tal que ela apresente mais de um sentido.
O guarda deteve o suspeito em sua casa. (na casa de quem ? do guarda ou do suspeito?)

d) CACÓFATO: consiste no mau som produzido pela junção de palavras.
Paguei cinco mil reais por cada.

e) PLEONASMO: consiste na repetição desnecessária de uma ideia.
A brisa matinal da manhã deixava-o satisfeito.

f) NEOLOGISMO: é a criação desnecessária de palavras.
Segundo Mário Prata, se adolescente é aquele que está entre a infância e a idade adulta, envelhescente é aquele que está entre a idade adulta e a velhice.

g) ARCAÍSMO: consiste na utilização de palavras que já caíram em desuso.
Vossa Mercê
me permite falar? (em vez de você)

h) ECO: trata-se da repetição de palavras terminadas pelo mesmo som.
O menino repetente mente alegremente.

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