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A ARANHA
Lugar-comum em uma rodinha e conversa de mães: "O meu filho/a é o bem mais precioso e importante do mundo" – depende da ótica. Logicamente que, o ponto de vista de qualquer mãe-coruja ninguém irá mudar.  E dá-lhe balançar a criança no colo. Também, para cada amigo ou namorado/a ou animalzinho de estimação é, para eles, a criatura mais importante do mundo, e nós, pais e mães, meros patrocinadores,  e subsidiadores de seu bem-estar social e financeiro, muitas vezes não nos damos conta nem percebemos isso porque há como que uma cortina embaçando nossos olhos, embevecidos e anestesiados que estamos pelo amor maternal ou paternal; não reparamos que na tela do computador ou mesmo no display do telefone celular deles o que cintila e luz não é a foto do pai ou da mãe, que são velhos, mas sim a foto de um cachorro ou de um gato! Nada contra os animais!
            Dia desses, em uma fazenda do interior do Mato Grosso, quedei-me a analisar o esforço de uma aranha que tentava, em vão, escalar uma parede de tijolos – pois foi isso o que deu causa à minha reflexão acima. Fato foi que eu empurrara com a botina, inadvertidamente, um pedaço podre de madeira sem saber que ali, sob aquele refúgio, estava escondido um aracnídeo, carro propulsor de todo este arrazoado.
            No seu afã de tentar escapar a um possível ataque, ela, que media mais ou menos 2 cm, pesada, caiu de uma altura razoável e estatelou-se no chão. Na queda notei que formara-se ao redor dela um corre-corre de minúsculos insetos, pelo que pensei que a mesma havia caído em um formigueiro. Mas não ! Ledo engano.  Ocorre que, na queda, vários filhotes se desgarraram de seu corpo, espalharam-se pelo chão e debandaram em uma fuga tresloucada. Nisso, baixou uma vespa que por ali voava e levou a nossa heroína. Esforço inglório da zelosa mãe que acabou seus dias sob o guante inclemente da vespa, por minha culpa, e não dolo. Tudo em prol da prole ! Também não me ocorreu pesquisar mais tarde, por curiosidade, se a aranha possui ou não algum mecanismo ou química para chamar de volta os filhotes à proteção de seu corpo.
Logo ali, ao lado, no gramado, perambulava uma formiga-leão (espécie de formiga muito comum do interior do Mato Grosso), solitária, em busca de misteres pela sobrevivência.  
Abro aqui um parêntese para constatar e divagar quão rica e maravilhosa é a fauna e a flora do cerrado brasileiro !
        Veio-me à memória, não sei por que cargas d’água, uma célebre frase: “Minhas filhas são tudo para mim... Faço tudo por elas...   Era a frase que costumeiramente ouvia minha irmã Helena pronunciar. E até hoje, já em idade avançada, ela carrega na bolsa uma foto, em preto e branco, onde aparece ao lado da filha pequena, lembrança dos dias áureos em que era jovem e bonita.
         Hoje, decorridos vários anos, na tresloucada corrida pela vida, após estatelar-se a madre e o matrimônio, me vem à mente a Quadrilha, de Drummond:
João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história
    Ouço que a Glênia está nos Estados Unidos, a Sabine, em Curitiba (Amar, verbo intransitivo), com os seus, no seu canto, e a Ariane com os olhos, quiçá, zelosos, no seu primeiro filho que eu, tio, ainda não vi e, creio, talvez nunca venha a conhecer, dada a dispersão familiar que sofremos e devido aos afazeres da profissão e da vida. 
         Reatando: vários anos se passaram desde aquela célebre frase de minha irmã e, seguramente outros tantos anos se passarão – a Glênia no seu canto, certamente dizendo o mesmo de seus filhos, como eu também talvez já tenha dito sobre os meus, e estes, quem sabe, daqui a alguns anos, aos seus descendentes. E assim sucessivamente. E tudo passa. E todos se casam.  Fugacidade. E não vivemos. E a vida flui. Fui 
 

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