OS TRES LEÕEZINHOS
Era uma vez, numa determinada floresta, uma leoa-mãe havia dado à luz 3 leõezinhos bem bonitinhos: O Rax, o Rix e o Rex. Um dia o macaco, representante eleito dos animais súditos, malandro e puxa-saco, fez uma reunião com toda a bicharada da floresta e...
 
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 NÓS SOMOS A AMÉRICA

 Cristóvão Colombo “descobriu” a América em 1492 ?  Ou antes dele, os vikings a descobriram? E antes dos vikings? Os que ali viviam, não existiam? Conta a história oficial que Vasco Núñez de Balboa foi o primeiro homem que viu, de uma montanha do Panamá, os dois oceanos. Os que viviam ali eram cegos? Quem deu os primeiros nomes ao milho e à batata e ao tomate e ao chocolate e às montanhas e aos rios da América? Hernán Cortés, Francisco Pizarro? Os que ali viviam eram mudos? Disseram-nos, e continuam dizendo, que os peregrinos do Mayflower foram povoar a América. A América estava vazia?   ¹  (Faça um paralelo desse recurso frasal de Eduardo Galeano com o crescendo frasal de Bertolt Brecht , do rodapé).
     Como Colombo não entendia o que diziam, pensou que não sabiam falar. Como andavam nus, eram mansos e davam tudo em troca de nada, acreditou que não eram pessoas de razão. E como estava seguro de ter chegado ao Oriente pela porta dos fundos, acreditou que eram índios da Índia. Depois, durante sua segunda viagem, o almirante ditou uma ata estabelecendo que Cuba era parte da Ásia.
      O documento de 14 de junho de 1494 deixou constatado que os tripulantes de suas três naves assim o reconheciam; e quem dissesse o contrário receberia cem chibatadas, pagaria pena de 10 mil maravedis e teria a língua cortada. O notário, Hernán Pérez de Luna, deu fé. E abaixo assinaram os marinheiros que sabiam assinar.
       Os conquistadores exigiam que a América fosse o que não era. Não viam o que viam, mas o que queriam ver: a fonte da juventude, a cidade do ouro, o reino das esmeraldas, o país da canela. E retrataram os americanos nativos tal como antes haviam imaginado como seriam os pagãos do Oriente. Cristóvão Colombo viu nas costas de Cuba sereias com rostos de homem e penas de galo, e soube que não longe dali homens e mulheres tinham rabos. Na Guiana, segundo sir Walter Raleigh, havia gente com os olhos nos ombros e a boca no peito. Na Venezuela, segundo frei Pedro Simon, existiam índios de orelhas tão grandes que chegavam a arrastar no chão. No rio Amazonas, segundo Cristóvão de Acuña, os nativos tinham os pés ao contrário, como o calcanhar na frente (ver a lenda brasileira do curupira), e segundo Pedro Martín de Anglería, as mulheres mutilavam um seio para melhor dispararem suas flechas. Anglería, que escreveu a primeira história da América sem nuca ter estado lá, afirmou também que no Novo Mundo havia pessoas com rabo, como havia contado Colombo, e seus rabos eram tão compridos que podiam sentar-se em buracos.
      O Código Negro proibia a tortura dos escravos nas colônias francesas. Mas não era por torturar, mas para educar, que os amos açoitavam seus negros e quando fugiam tinham os tendões cortados. Eram comovedoras as Leis das Índias, que protegiam os índios nas colônias espanholas. Mas mais comovedoras eram o pelourinho e a forca encravadas no centro de cada Plaza Mayor.

Era muito convincente a leitura do Requerimento, que às vésperas do assalto de cada aldeia explicava aos índios que Deus veio ao mundo e que deixara em seu lugar São Pedro e que São Paulo tinha por sucessor o “Santo Padre” e que o Santo Padre havia concedido à rainha de Castela toda esta terra e, por isso, deviam partir daqui ou pagar tributo em ouro e que em caso negativo ou demora, enfrentariam a guerra e seriam convertidos em escravos, bem como suas mulheres e seus filhos. Mas este Requerimento de Obediência era lido na montanha, em plena noite, em língua castelhana e sem intérprete, na presença do notário e de nenhum índio, porque os índios dormiam a algumas léguas de distância, e não tinham a menor idéia do que estava para cair sobre eles.
       Até há pouco tempo, 12 de outubro era o Dia da Raça. Mas, por acaso, existe semelhante coisa? O que é a Raça, além de uma maneira útil para exprimir ou exterminar o próximo? No ano de 1942, quando os Estados Unidos entraram na guerra mundial, a Cruz Vermelha desse país decidiu que o sangre negro não seria admitido em seus estoques de sangue. Assim, evitava-se que a mistura de raças, proibida na cama, ocorresse por injeção. Alguém, alguma vez, viu sangue negro? Depois, o Dia da Raça passou a ser o Dia do Encontro e depois o Dia da Criança. São encontros as invasões coloniais? As leis de ontem, as de hoje, encontros? Não seria melhor chamá-las de violações? Talvez o episódio mais revelador da história da América tenha ocorrido em 1563, no Chile. O fortim de Araco estava sitiado pelos índios, sem água nem comida, mas o capitão Lorenzo Bernal negou-se a se render. De cima da paliçada gritou:
- Nós seremos em número cada vez maior.
- Com quais mulheres?, perguntou o chefe índio.
-   Com as suas. Nós faremos filhos nelas que serão seus amos.
  Os invasores chamaram os antigos americanos de canibais, mas mais canibal era o Cerro Rico de Potosí, cujas bocas comiam carne de índios para alimentar o desenvolvimento capitalista da Europa. Eu os chamaria idólatras, porque acreditavam que a natureza é sagrada e que somos irmãos de tudo o que tem pernas, patas, asas ou raízes.
  E os chamaram selvagens. Nisso, ao menos, não se equivocaram. Tão brutos eram os índios que ignoravam que deviam exigir visto, certificado de boa conduta e permissão de trabalho a Colombo, Cabral, Cortés, Alvarado, Pizarro e aos peregrinos do Mayflower.
 

SALVA-VIDAS DE CHUMBO

 
     Nossos países se modernizam. Agora, o discurso oficial e a voz de comando manda honrar a dívida (embora seja desonrosa), atrair investimentos (embora sejam indignos), que nossos países devem acreditar na liberdade do comércio (embora ela não exista),  e entrar no mundo (ainda que pela porta de serviço). Na realidade, continuamos acreditando nas histórias de sempre. A América Latina nasceu para obedecer ao mercado mundial, ainda quando este mercado não se chamava assim, e mal ou bem seguimos atados ao dever de obediência.
 
     Esta triste rotina dos séculos começou com o ouro e a prata e seguiu com o açúcar, tabaco, guano, salitre, cobre, estanho, borracha, cacau, banana, café, petróleo. O que nos deixaram esses esplendores? Nos deixaram sem herança nem querência. Jardins transformados em desertos, campos abandonados, montanhas esburacadas, águas podres, longas caravanas de infelizes condenados à morte precoce, vazios palácios onde perambulam os fantasmas.  Agora é a vez da soja transgênica e da celulose. E novamente se repete a história das glórias fugazes, que ao som de suas trombetas nos anunciam longas infelicidades.
 
     O passado será mudo? Nos negamos a ouvir as vozes que nos advertem: “os sonhos do mercado mundial são os pesadelos dos países que se submetem aos seus caprichos”. Continuamos aplaudindo o seqüestro dos bens naturais que Deus (ou o diabo ?), nos deu, e assim trabalhamos por nossa própria perdição e contribuímos para o extermínio da pouca natureza que resta neste mundo.
 
 E que dizer das árvores brasileiras e do mogno que demora anos para crescer ? Muitos são os anéis que seus aniversários desenharam em seu tronco. Estas árvores, estes gigantes cheios de anos, levam séculos cravados no fundo da terra, e não podem fugir. Indefesos diante das serras elétricas dos madeireiros ávidos por dólares, rangem e caem. Em cada derrubada o mundo vem abaixo; e a passarada fica sem casa.
        Morrem assassinados os velhos estorvos. Em seu lugar, crescem os jovens rentáveis eucaliptos e pinus. Os bosques nativos abrem espaço para os bosques artificiais. A ordem, a ordem militar, ordem industrial, triunfa sobre o caos natural. Parecem soldados em fila os pinheiros e eucaliptos de exportação, que marcham rumo ao mercado internacional.
         Fast food, fast wood: os bosques artificiais crescem num instante e vendem-se num piscar de olhos. Fontes de divisas, exemplos de desenvolvimento, símbolos de progresso, esses criadouros de madeira ressecam a terra e arruínam os solos.
              Neles, os pássaros não cantam.
        As pessoas os chamam de bosques do silêncio.
    Argentina, Brasil e outros países latino-americanos vivem a febre da soja transgênica. Preços tentadores, rendimentos multiplicados. A Argentina é, há algum tempo, o segundo produtor mundial de transgênicos, depois dos Estados Unidos. No Brasil, o governo de Lula executou uma dessas piruetas que fazem pela democracia e disse SIM à soja transgênica, embora seu partido tenha dito um NÃO durante toda a campanha eleitoral. Isto é pão para hoje e fome para amanhã, como denunciam alguns sindicatos rurais e organizações ecologistas. Mas já se sabe que os camponeses ignorantes se negam a entender as vantagens do pasto de plástico e da vaca a motor, e que os ecologistas são uns estraga-festas que sempre cospem no assado.
      Os defensores dos transgênicos afirmam que não está provado que prejudicam a saúde humana. Em todo caso, tampouco está provado que não a prejudicam. E, se são tão inofensivos, por que os fabricantes de soja transgênica se negam a declarar, nas embalagens, que vendem o que vendem? Ou, por acaso, o rótulo de soja transgênica não seria a melhor publicidade? Mas há evidências de que essas invenções do doutor Frankenstein afetam a saúde dos solos e reduzem a soberania nacional. Exportamos soja ou exportamos solo? E, por acaso, não ficamos presos nas jaulas da Monsanto e outras grandes empresas de cujas sementes, herbicidas e pesticidas passamos a depender? Terras que produziam de tudo para o mercado local, agora se consagram a um só produto para a demanda estrangeira. Me desenvolvo para fora, e me esqueço do que tem dentro. O monocultivo é uma prisão, sempre foi, e agora, com os transgênicos, muito mais. A diversidade, por outro lado, libera. A independência se reduz ao hino e à bandeira se não existe soberania alimentar. A autodeterminação começa pela boca. Somente a diversidade produtiva pode nos defender das súbitas quedas de preços que são costume, costume mortal, do mercado mundial.
  As imensas áreas destinadas à soja transgência estão arrasando as florestas nativas e expulsando os camponeses pobres. Poucos braços ocupam estas explorações altamente mecanizadas, que, por outro lado, exterminam as pequenas plantações e hortas familiares com os venenos que utilizam. Multiplica-se o êxodo rural para as grandes cidades, onde se supõe que os expulsos vão consumir, se tiverem a sorte, o que antes produziam. É a agrária reforma. A reforma agrária ao contrário. A celulose também entrou na moda, em vários países. O Uruguai, para não ir mais longe, está querendo se converter em um centro mundial de produção de celulose para fornecer matéria-prima barata a distantes fábricas de papel. Trata-se de monoculturas de exportação, na mais pura tradição colonial: imensas plantações artificiais que dizem ser florestas e se convertem em celulose em um processo industrial que despeja dejetos químicos nos rios e torna o ar irrespirável. Aqui no Uruguai começaram a ser construídas duas fábricas enormes, uma delas já no meio da construção. Depois foi incorporado outro projeto, e se fala de outro e de outro mais, e mais hectares estão sendo destinados à produção de eucaliptos em série.
 
      As grandes multinacionais nos descobriram no mapa e brotaram subitamente cheias de amor por este Uruguai onde não há tecnologia capaz de controlá-las, o Estado lhes concede subsídios e isenção de impostos, os salários são raquíticos e as árvores brotam em um piscar de olhos. Tudo indica que nosso pequeno país não poderá suportar o asfixiante abraço destes grandalhões. Como costuma ocorrer, as bênçãos da natureza se transformam em maldições da história. Nossos eucaliptos crescem 10 vezes mais rápidos do que os da Finlândia, e isto se traduz da seguinte maneira: as plantações industriais serão 10 vezes mais devastadoras. Ao ritmo de exploração previsto, boa parte do território nacional será espremida até a última gota de água. Os gigantes sedentos vão secar nosso solo e subsolo.
        Trágico paradoxo: este foi o único lugar do mundo onde se submeteu a plebiscito a propriedade da água. Por esmagadora maioria, os uruguaios decidiram, em 2004, que a água seria de propriedade pública. Não haverá maneira de evitar este seqüestro da vontade popular?
        É preciso reconhecer que a celulose se converteu em algo com uma causa patriótica, e a defesa da natureza não desperta entusiasmo. E pior: em nosso país, doente de celulite, algumas palavras que não eram más palavras, como ecologista e ambientalista, estão se transformando em insultos que crucificam os inimigos do progresso e os sabotadores do trabalho. Comemora-se a desgraça como se fosse uma boa notícia. Mais vale morrer de contaminação do que morrer de fome: muitos desempregados acreditam que não há mais remédio a não ser escolher entre duas calamidades, e os vendedores de ilusões desembarcam oferecendo milhares e milhares de empregos.
 
      Mas uma coisa é a publicidade, e outra a realidade. O MST, o movimento de camponeses sem-terra divulgou dados eloqüentes, que não valem apenas para o Brasil: a celulose gera um emprego para cada 185 hectares, enquanto a agricultura familiar cria cinco postos de trabalho para cada 10 hectares. As empresas prometem o melhor. Trabalho em abundância, investimentos milionários, controles rígidos, ar puro, água limpa, terra intacta. E é o caso de se perguntar por que não instalam estas maravilhas em Punta del Este, para melhorar a qualidade de vida e estimular o turismo em nosso principal balneário?
 

AS GUERRAS MENTEM

 
       Dizem que as guerras acontecem por razões nobres: a segurança internacional, a dignidade nacional, a democracia, a liberdade, a ordem, o mandato da Civilização ou a vontade de Deus. Nenhum país tem a honestidade de confessar: “Mato para roubar”. Não menos de três milhões de civis morreram no Congo ao longo da guerra de quatro anos que acabou no final de 2002. Morreram por causa do coltan, mas nem eles o sabiam. O coltan é um mineral raro, e seu raro nome designa a mistura de dois raros minerais chamados columbita e tantalita. Pouco ou nada valia o coltan, até que se descobriu que é indispensável para a fabricação de telefone celular, DVD player, games, naves espaciais, computadores e mísseis. Então, passou a ser mais caro do que o ouro.
        Quase todas as reservas conhecidas de coltan estão nas areias do Congo. Há mais de 40 anos, Patrício Lumumba foi sacrificado em um altar de ouro e diamantes. Seu país volta a matá-lo a cada dia. O Congo, país paupérrimo, é riquíssimo em minerais, e esse presente da natureza continua sendo a maldição da história.

        Os africanos o chamam de “petróleo excremento do Diabo”.
Em 1978, se descobriu petróleo no sul do Sudão. Sete anos depois, sabe-se que as reservas chegam a mais do que o dobro, e a maior quantidade está a oeste do país, na região de Darfur. Ali ocorreu recentemente, e continua ocorrendo, outra matança. Muitos camponeses negros, dois milhões segundo algumas estimativas, fugiram ou sucumbiram, a tiros, facadas ou fome, na passagem das milícias árabes que o governo apóia com tanques e helicópteros. Esta guerra se disfarça de conflito étnico e religioso entre os pastores árabes, islâmicos e os famintos negros, cristãos e animistas. Mas ocorre que as aldeias incendiadas e as plantações arrasadas estavam onde agora começam surgir torres de petróleo que perfuram a terra.
      A negação da evidência, injustamente atribuída aos bêbados, é o mais notório costume do presidente do Planeta, que graças a Deus não bebe uma gota. Ele continua afirmando, dia sim outro também, que sua guerra no Iraque não tem nada a ver com o petróleo. “Nos enganamos escondendo informação sistematicamente” , escrevia desde o Iraque, lá por volta de 1920, um tal Lawrence da Arábia: “O povo da Inglaterra foi levado à Mesopotâmia para cair em uma armadilha da qual será difícil sair com dignidade e com honra”.
   Sei que a história não se repete; mas às vezes duvido.
E a obsessão contra Chávez? Não tem nada a ver com o petróleo da Venezuela esta frenética campanha que ameaça matar, em nome da democracia, o ditador que ganhou nove eleições limpas? E os contínuos gritos de alarme pelo perigo nuclear iraniano, não têm nada a ver com o fato de o Irã possuir uma das reservas de gás mais ricas do mundo? Se não for assim, com se explica isso de perigo nuclear? Foi o Irã o país que jogou as bombas nucleares sobre a população civil de Hiroshima e Nagasaki? A empresa Bechtel, com sede na Califórnia, havia recebido em concessão, por 40 anos, a água de Cochabamba, na Bolívia. Toda a água, incluindo as das chuvas. Nem bem se instalou, triplicou as tarifas. Uma revolta se instalou e a empresa teve de deixar a Bolívia.
       O presidente Bush se apiedou da expulsão e a consolou dando-lhe a água do Iraque. Muito generoso de sua parte. O Iraque não só é digno de aniquilamento por sua fabulosa riqueza petrolífera: este país, regado pelos rios Tigre e Eufrates, também merece o pior porque é a mais rica fonte de água doce de todo o Oriente Médio. O mundo está sedento. Os venenos químicos apodrecem os rios e as secas os exterminam, a sociedade de consumo consome cada vez mais água, a água é cada vez menos potável e cada vez mais escassa. Todos dizem, todos sabem: as guerras do petróleo serão, amanhã, guerras da água. Na realidade, as guerras da água já estão ocorrendo. São guerras de conquista, mas os invasores não lançam bombas nem desembarcam tropas. Viajam vestidos de civil estes tecnocratas internacionais que submetem os países pobres a estado de sítio e exigem privatização ou morte. Suas armas, mortíferos instrumentos de extorsão e de castigo, não fazem volume nem barulho. O Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional, dois dentes da mesma pinça, impuseram, nos últimos anos, a privatização da água em 16 países pobres. Entre eles, alguns dos mais pobres do mundo, como Benin, Níger, Moçambique, Ruanda, Iêmen, Tanzânia, Camarões, Honduras, Nicarágua... O argumento era irrefutável: ou entregam a água ou não haverá clemência com a dívida nem empréstimos novos.
      Os especialistas também tiveram a paciência de explicar que não faziam isso para desmantelar soberanias, mas por ajudar a modernização dos países afundados no atraso pela ineficiência do Estado. E se as contas da água privatizada resultavam impagáveis para a maioria da população, tanto melhor: quem sabe assim se despertaria finalmente sua adormecida vontade de trabalho e superação pessoal.

          Na democracia, quem manda? Os funcionários internacionais das altas finanças, em quem ninguém votou?
No final de outubro do ano passado, um plebiscito decidiu o destino da água no Uruguai. A grande maioria da população votou, por esmagadora maioria, confirmando que a água é um serviço público e um direito de todos. Foi uma vitória da democracia contra a tradição de impotência, que nos ensina que somos incapazes de gerir a água ou outra coisa; e contra a má fama da propriedade pública, desprestigiada pelos políticos que a usam e maltratam, como se o que é de todos fosse de ninguém.
     O plebiscito do Uruguai não teve nenhuma repercussão internacional. Os grandes meios de comunicação não se inteiraram desta batalha da guerra da água, perdida pelos que sempre ganham; e o exemplo não contagiou nenhum país do mundo. Este foi o primeiro plebiscito da água e até agora, pelo que se sabe, foi também o último.
 

O MURO DA VERGONHA

 
         O Muro de Berlim, até novembro de 1989, era notícia diariamente. De manhã à noite líamos, víamos, escutávamos: o Muro da Vergonha, o Muro da Infâmia, a Cortina de Ferro... Por fim, esse muro, que merecia cair, caiu. Mas outros muros surgiram, continuam surgindo no mundo e, embora sejam muito maiores do que o de Berlim, deles pouco, ou nada, se fala. Pouco se fala do muro que os Estados Unidos estão erguendo na fronteira mexicana, e pouco se fala dos alambrados de Ceuta e Melilla. Quase nada se fala do Muro da Cisjordânia, que perpetua a ocupação israelense de terras palestinas e daqui a pouco será 15 vezes mais comprido do que o Muro de Berlim. E nada, nada de nada, se fala do Muro do Marrocos, que há 20 anos perpetua a ocupação marroquina do Saara ocidental. Este muro, minado de ponta a ponta e de ponta a ponta vigiado por milhares de soldados, mede 60 vezes mais do que o Muro de Berlim. Por que será que há muros tão altissonantes e muros mudos? Será por causa dos muros da falta de comunicação, que os grandes meios de comunicação constroem a cada dia?
      Em julho de 2004, a Corte Internacional de Justiça de Haia determinou que o Muro da Cisjordânia violava o direito internacional e mandou que fosse demolido. Até agora, Israel não fez nada. Em outubro de 1975, a mesma Corte havia determinado: "Não se estabelece a existência de vínculo algum de soberania entre o Saara Ocidental e o Marrocos”. Ficamos aquém se dissermos que o Marrocos foi surdo. Foi pior: no dia seguinte ao desta resolução, desatou a invasão, a chamada Marcha Verde, e pouco depois se apoderou a sangue e fogo dessas vastas terras alheias e expulsou a maioria da população. E por aí vai.
      Mil e uma resoluções das Nações Unidas confirmam o direito à autodeterminação do povo saaraui. De que serviram essas resoluções? Seria realizado um plebiscito, para que a população decidisse seu destino. Para garantir a vitória, o monarca do Marrocos encheu de marroquinos o território invadido. Pouco depois, nem mesmo os marroquinos foram dignos de sua confiança. E o rei, que havia dito ‘sim’, disse ‘quem sabe’. E depois de um ano disse ‘não’, e agora seu filho, herdeiro do trono, também diz não. A negativa equivale a uma confissão. Negando o direito de voto, o Marrocos confessa que roubou um país.
     Continuaremos aceitando tal coisa? Aceitando que na democracia universal os súditos só podem exercer o direito de obediência? De que serviram as mil e uma resoluções das Nações Unidas contra a ocupação israelense dos territórios palestinos? E as mil e uma resoluções contra o bloqueio de Cuba?
      O velho provérbio ensina: “a hipocrisia é o imposto que o vício paga à virtude”. O patriotismo é, hoje, um privilégio das nações dominantes. Quando praticado por nações dominadas, o patriotismo se torna suspeito de populismo ou terrorismo, ou simplesmente não merece a menor atenção. Os patriotas saarauis, que há 30 anos lutam para recuperar seu lugar no mundo, conseguiram o reconhecimento diplomático de 82 países. Entre eles, meu país, o Uruguai, que recentemente somou-se à grande maioria dos países latino-americanos e africanos.
        Porém, a Europa não. Nenhum país europeu reconheceu a República Saaraui. A Espanha tampouco. Este é um grave caso de irresponsabilidade, ou, talvez, de amnésia, ou, pelo menos, de desamor. Até 30 anos atrás, o Saara era colônia da Espanha, e a Espanha tinha o dever legal e moral de amparar sua independência. O que deixou ali o domínio imperial? Após um século, quantos universitários formou? No total, três: um médico, um advogado e um perito mercantil. Só isso. E deixou uma traição. A Espanha serviu de bandeja essa terra e essa gente para que fossem devoradas pelo reino do Marrocos.
      Desde então, o Saara é a última colônia da África. Teve usurpada sua independência. Por que será que os olhos se negam a ver o que está diante deles? Será por serem os saarauis uma moeda de troca, oferecida por empresas e países que compram do Marrocos o que o Marrocos vende, embora não seja seu?
   Há dois anos, Javier Corcuera entrevistou, em um hospital de Bagdá, uma vítima dos bombardeios contra o Iraque. Uma bomba havia destroçado um de seus braços. E ela, que tinha apenas oito anos de idade e havia sofrido 11 cirurgias, disse: “Oxalá não tivéssemos petróleo...” Talvez o povo do Saara seja culpado porque em seu longo litoral reside o maior tesouro pesqueiro do Oceano Atlântico e porque sob a imensidade de areia, que parece tão vazia, exista a maior reserva mundial de fosfatos e, talvez, também de petróleo, gás e urânio.
   No Alcorão poderia estar escrito, embora não esteja, esta profecia: “as riquezas naturais serão a maldição das pessoas”.
        Os acampamentos de refugiados, ao sul da Argélia, estão no mais deserto dos desertos. É um vastíssimo nada, cercado de nada, onde só crescem as pedras. E mesmo assim, nessa aridez, e nas zonas liberadas, que não são muito melhores, os saarauis foram capazes de criar a sociedade mais aberta, e a menos machista, do mundo muçulmano. Este milagre dos saarauis, que são muito pobres e muito poucos, não só se explica por sua firme vontade de serem livres,  algo que sobra nesses lugares onde tudo falta. Também se explica, em grande parte, pela solidariedade internacional. E a maior parte da ajuda provém dos povos da Espanha. Sua energia solidária, memória e fonte de dignidade, é muito mais poderosa do que o vai-e-vem dos governos e dos mesquinhos cálculos das empresas. Digo solidariedade, não caridade. A caridade humilha. Não se equivoca o provérbio africano que diz: a mão que recebe está sempre por baixo da mão que dá.
     Os  saarauis esperam. Estão condenados às penas da angústia perpétua e da perpétua nostalgia. Os acampamentos de refugiados levam os nomes de suas cidades seqüestradas, seus perdidos lugares de encontro, suas querências: El Aaiún, Smara...
Eles se chamam filhos das nuvens, porque desde sempre perseguem a chuva. Há mais de 30 anos perseguem, também, a Justiça, que no mundo de nosso tempo parece mais esquiva do que a água no deserto.
 

O IMPÉRIO DO CONSUMO

 
    A explosão do consumo no mundo atual faz mais barulho do que todas as guerras e mais algazarra do que todos os carnavais. Como diz um velho provérbio turco, aquele que bebe a conta, fica bêbado em dobro. A gandaia aturde e anuvia o olhar; esta grande bebedeira universal parece não ter limites no tempo nem no espaço. Mas a cultura de consumo faz muito barulho, assim como o tambor, porque está vazia; e na hora da verdade, quando o estrondo cessa e acaba a festa, o bêbado acorda, sozinho, acompanhado pela sua sombra e pelos pratos quebrados que deve pagar.
     A expansão da demanda se choca com as fronteiras impostas pelo mesmo sistema que a gera. O sistema precisa de mercados cada vez mais abertos e mais amplos tanto quanto os pulmões precisam de ar e, ao mesmo tempo, requer que estejam no chão, como estão, os preços das matérias primas e da força de trabalho humana. O sistema fala em nome de todos, dirige a todos suas imperiosas ordens de consumo, entre todos espalha a febre compradora; mas não tem jeito: para quase todo o mundo esta aventura começa e termina na telinha da televisão. A maioria, que contrai dívidas para ter coisas, termina tendo apenas dívidas para pagar suas dívidas, as quais geram novas dívidas, e acaba consumindo fantasias que, às vezes, materializa cometendo delitos. O direito ao desperdício, privilégio de poucos, afirma ser a liberdade de todos.
      Dize-me quanto consomes e te direi quanto vales. Esta civilização não deixa as flores dormirem, nem as galinhas, nem as pessoas. Nas estufas, as flores estão expostas à luz contínua, para fazer com que cresçam mais rapidamente. Nas fábricas de ovos, a noite também está proibida para as galinhas. E as pessoas estão condenadas à insônia, pela ansiedade de comprar e pela angústia de pagar. Este modo de vida não é muito bom para as pessoas, mas é muito bom para a indústria farmacêutica. Os EUA consomem metade dos calmantes, ansiolíticos e demais drogas químicas que são vendidas legalmente no mundo e mais da metade das drogas proibidas que são vendidas ilegalmente, o que não é uma coisinha à-toa quando se leva em conta que os EUA contam com apenas cinco por cento da população mundial.
     "Gente infeliz, essa que vive se comparando", lamenta uma mulher no bairro de Buceo, em Montevidéu. A dor de já não ser, que outrora cantava o tango, deu lugar à vergonha de não ter. Um homem pobre é um pobre homem. "Quando não tens nada, pensas que não vales nada", diz um rapaz no bairro Villa Fiorito, em Buenos Aires. E outro confirma, na cidade dominicana de San Francisco de Macorís: "Meus irmãos trabalham para as marcas. Vivem comprando etiquetas, e vivem suando feito loucos para pagar as prestações".
     Invisível violência do mercado: a diversidade é inimiga da rentabilidade, e a uniformidade é que manda. A produção em série, em escala gigantesca, impõe em todas partes suas pautas obrigatórias de consumo. Esta ditadura da uniformização obrigatória é mais devastadora do que qualquer ditadura do partido único: impõe, no mundo inteiro, um modo de vida que reproduz seres humanos como fotocópias do consumidor exemplar.
     O consumidor exemplar é o homem quieto. Esta civilização, que confunde quantidade com qualidade, confunde gordura com boa alimentação. Segundo a revista científica The Lancet, na última década a obesidade mórbida aumentou quase 30% entre a população jovem dos países mais desenvolvidos. Entre as crianças norte-americanas, a obesidade aumentou 40% nos últimos dezesseis anos, segundo pesquisa recente do Centro de Ciências da Saúde da Universidade do Colorado. O país que inventou as comidas e bebidas light, os diet food e os alimentos fat free, tem a maior quantidade de gordos do mundo. O consumidor exemplar desce do carro só para trabalhar e para assistir televisão. Sentado na frente da telinha ou do computador, passa quatro horas por dia devorando comida plástica e comendo pipoca.
      Vence o lixo fantasiado de comida: essa indústria está conquistando os paladares do mundo e está demolindo as tradições da cozinha local. Os costumes do bem comer, que vêm de longe, contam, em alguns países, milhares de anos de refinamento e diversidade e constituem um patrimônio coletivo que, de algum modo, está nos fogões de todos e não apenas na mesa dos ricos. Essas tradições, esses sinais de identidade cultural, essas festas da vida, estão sendo esmagadas, de modo fulminante, pela imposição do saber químico e único: a globalização do hambúrguer, a ditadura do fast food. A plastificação da comida em escala mundial, obra do McDonald´s, do Burger King e de outras fábricas, viola com sucesso o direito à autodeterminação da cozinha: direito sagrado, porque na boca a alma tem uma das suas portas.
         A Copa do Mundo de futebol de 1998 confirmou para nós, entre outras coisas, que o cartão MasterCard tonifica os músculos, que a Coca-Cola proporciona eterna juventude e que o cardápio do McDonald´s não pode faltar na barriga de um bom atleta. O imenso exército do McDonald´s dispara hambúrgueres nas bocas das crianças e dos adultos no planeta inteiro. O duplo arco dessa M serviu como estandarte, durante a recente conquista dos países do Leste Europeu.
         As filas na frente do McDonald´s de Moscou, inaugurado em 1990 com bandas e fanfarras, simbolizaram a vitória do Ocidente com tanta eloqüência quanto a queda do Muro de Berlim. Um sinal dos tempos: essa empresa, que encarna as virtudes do mundo livre, nega aos seus empregados a liberdade de filiar-se a qualquer sindicato. O McDonald´s viola, assim, um direito legalmente consagrado nos muitos países onde opera. Em 1997, alguns trabalhadores, membros disso que a empresa chama de Macfamília, tentaram sindicalizar-se em um restaurante de Montreal, no Canadá: o restaurante fechou. Mas, em 98, outros empregados do McDonald´s, em uma pequena cidade próxima a Vancouver, conseguiram essa conquista, digna do Guinness. As massas consumidoras recebem ordens em um idioma universal: a publicidade conseguiu aquilo que o esperanto quis e não pôde.
       Qualquer um entende, em qualquer lugar, as mensagens que a televisão transmite. No último quarto de século, os gastos em propaganda dobraram no mundo todo. Graças a isso, as crianças pobres bebem cada vez mais Coca-Cola e cada vez menos leite e o tempo de lazer vai se tornando tempo de consumo obrigatório. Tempo livre, tempo prisioneiro: as casas muito pobres não têm cama, mas têm televisão, e a televisão está com a palavra. Comprado em prestações, esse animalzinho é uma prova da vocação democrática do progresso: não escuta ninguém, mas fala para todos. É a maquininha de fazer doidos e que impõe padrões de consumo e de comportamento.
      Pobres e ricos conhecem, assim, as qualidades dos automóveis do último modelo, e pobres e ricos ficam sabendo das vantajosas taxas de juros que tal ou qual banco oferece. Os especialistas sabem transformar as mercadorias em mágicos conjuntos contra a solidão. As coisas possuem atributos humanos: acariciam, fazem companhia, compreendem, ajudam, o perfume te beija e o carro é o amigo que nunca falha. A cultura do consumo fez da solidão o mais lucrativo dos mercados.
       Os buracos no peito são preenchidos enchendo-os de coisas, ou sonhando com fazer isso. E as coisas não só podem abraçar: elas também podem ser símbolos de ascensão social, salvo-condutos para atravessar as alfândegas da sociedade de classes, chaves que abrem as portas proibidas. Quanto mais exclusivas, melhor: as coisas escolhem você e salvam você do anonimato das multidões. A publicidade não informa sobre o produto que vende, ou faz isso muito raramente. Isso é o que menos importa. Sua função primordial consiste em compensar frustrações e alimentar fantasias. Comprando este creme de barbear, você quer se transformar em quem?
   O criminologista Anthony Platt observou que os delitos das ruas não são fruto somente da extrema pobreza. Também são fruto da ética individualista. A obsessão social pelo sucesso, diz Platt, incide decisivamente sobre a apropriação ilegal das coisas. Eu sempre ouvi dizer que o dinheiro não traz felicidade; mas qualquer pobre que assista a televisão tem motivos de sobra para acreditar que o dinheiro traz algo tão parecido que a diferença é assunto para especialistas.
    Segundo o historiador Eric Hobsbawm, o século XX marcou o fim de sete mil anos de vida humana centrada na agricultura, desde que apareceram os primeiros cultivos, no final do paleolítico. A população mundial torna-se urbana, os camponeses tornam-se cidadãos. Na América Latina temos campos sem ninguém e enormes formigueiros urbanos: as maiores cidades do mundo, e as mais injustas. Expulsos pela agricultura moderna de exportação e pela erosão das suas terras, os camponeses invadem os subúrbios. Eles acreditam que Deus está em todas as partes, mas por experiência própria sabem que Ele só atende nos grandes centros urbanos.
   As cidades prometem trabalho, prosperidade, um futuro para os filhos. Nos campos, os esperadores olham a vida passar, e morrem bocejando; nas cidades, a vida acontece e chama. Amontoados em cortiços, a primeira coisa que os recém-chegados descobrem é que o trabalho falta e os braços sobram, que nada é de graça e que os artigos de luxo mais caros são o ar e o silêncio. O espaço próprio e a casa são sonhos quase inacessíveis.
      Enquanto o século XIV nascia, o padre Giordano da Rivalto pronunciou, em Florença, um elogio das cidades. Disse que as cidades cresciam “porque as pessoas sentem gosto em juntar-se”. Juntar-se, encontrar-se. Mas, quem encontra-se com quem? A esperança encontra-se com a realidade? O desejo, encontra-se com o mundo? E as pessoas, encontram-se com as pessoas? Se as relações humanas foram reduzidas a relações entre coisas, quanta gente encontra-se com as coisas?
      O mundo inteiro tende a transformar-se em uma grande tela de televisão, na qual as coisas se olham mas não se tocam. As mercadorias em oferta invadem e privatizam os espaços públicos.
          Os terminais de ônibus e as estações de trens, que até pouco tempo atrás eram espaços de encontro entre pessoas, estão se transformando, agora, em espaços de exibição comercial. O shopping center, o centro comercial, vitrine de todas as vitrines, impõe sua presença esmagadora. As multidões concorrem, em peregrinação, a esse templo maior das missas do consumo. A maioria dos devotos contempla, em êxtase, as coisas que seus bolsos não podem pagar, enquanto a minoria compradora é submetida ao bombardeio das ofertas incessantes e extenuantes das imagens disparadas pela metralhadora da televisão: “compre, compre, compre – gaste, gaste, gaste”.  A multidão, que sobe e desce pelas escadas mecânicas, viaja pelo mundo: os manequins vestem como em Milão ou Paris e as máquinas soam como em Chicago; e para ver e ouvir não é preciso pagar passagem. Os turistas vindos das cidades do interior, ou das cidades que ainda não mereceram estas benesses da felicidade moderna, posam para a foto, aos pés das marcas internacionais mais famosas, tal e como antes posavam aos pés da estátua do prócer na praça.
    Beatriz Solano observou que os habitantes dos bairros suburbanos vão ao “center”, ao shopping center, como antes iam até o centro. O tradicional passeio do fim-de-semana até o centro da cidade tende a ser substituído pela excursão até esses centros urbanos. De banho tomado, arrumados e penteados, vestidos com suas melhores galas, os visitantes vêm para uma festa à qual não foram convidados, mas podem olhar tudo. Famílias inteiras empreendem a viagem na cápsula espacial que percorre o universo do consumo, onde a estética do mercado desenhou uma paisagem alucinante de modelos, marcas e etiquetas.
   A cultura do consumo, cultura do efêmero, condena tudo à descartabilidade midiática. Tudo muda no ritmo vertiginoso da moda, colocada a serviço da necessidade de vender. As coisas envelhecem num piscar de olhos, para serem substituídas por outras coisas de vida fugaz. Hoje, quando o único que permanece é a insegurança, as mercadorias, fabricadas para não durar, são tão voláteis quanto o capital que as financia e o trabalho que as gera. O dinheiro voa na velocidade da luz: ontem estava lá, hoje está aqui, amanhã quem sabe onde, e todo trabalhador é um desempregado em potencial.
   Paradoxalmente, os shoppings centers, reinos da fugacidade, oferecem a mais bem-sucedida ilusão de segurança. Eles resistem fora do tempo, sem idade e sem raiz, sem noite e sem dia e sem memória, e existem fora do espaço, além das turbulências da perigosa realidade do mundo.
   Os donos do mundo usam o mundo como se fosse descartável: uma mercadoria de vida efêmera, que se esgota assim como se esgotam, pouco depois de nascer, as imagens disparadas pela metralhadora da televisão e as modas e os ídolos que a publicidade lança, sem pausa, no mercado. Mas, para qual outro mundo vamos nos mudar? Estamos todos obrigados a acreditar na historinha de que Deus vendeu o planeta para umas poucas empresas porque, estando de mau humor, decidiu privatizar o universo? A sociedade de consumo é uma armadilha para pegar bobos.
    Aqueles que comandam o jogo fazem de conta que não sabem disso, mas qualquer um que tenha olhos na cara pode ver que a grande maioria das pessoas consome pouco, pouquinho e nada, necessariamente, para garantir a existência da pouca natureza que nos resta. A injustiça social não é um erro por corrigir, nem um defeito por superar: é uma necessidade essencial. Não existe natureza capaz de alimentar um shopping center do tamanho do planeta.
 

O PAÍS QUE QUER EXISTIR

 
Uma imensa explosão de gás: assim foi a revolta popular que sacudiu toda a Bolívia e culminou com a renúncia do presidente Sánchez de Lozada, que fugiu deixando para trás um matadouro. O gás ia ser enviado à Califórnia, a um preço ruim e em troca de mesquinhas regalias, através de terras chilenas que em outros tempos tinham sido bolivianas. A saída do gás por um porto do Chile jogou sal na ferida, num país que há mais de século vem exigindo, em vão, a recuperação do caminho ao mar que perdeu em 1883, na guerra que o Chile venceu. Mas a rota do gás não foi o motivo mais importante da fúria que ardeu por toda a parte. Outra fonte essencial foi a indignação popular, que o governo respondeu a bala, como é de costume, regando de mortos as ruas e caminhos. As pessoas se revoltaram porque se negam a aceitar que aconteça com o gás o que antes aconteceu com a prata, o salitre, o estanho e muito mais. A memória dói e ensina: os recursos naturais não renováveis se vão sem dizer adeus e jamais regressam.
Por volta de 1870, um diplomata inglês sofreu na Bolívia um desagradável incidente. O ditador Mariano Melgarejo lhe ofereceu um copo de chicha, a bebida nacional feita de milho fermentado, e o diplomata agradeceu mas disse que preferia chocolate. Melgarejo, com sua habitual delicadeza, o obrigou a beber uma enorme jarra cheia de chocolate e depois levou para passear num burro, montado ao contrário, pelas ruas da cidade de La Paz. Quando a rainha Vitória, em Londres, ficou sabendo do fato, mandou trazer um mapa, marcou o país com uma cruz e sentenciou: “Bolívia não existe”. Várias vezes escutei esta história. Terá acontecido assim? Pode ser que sim, pode ser que não. Mas essa frase, atribuída à arrogância imperial, pode ser lida também como uma involuntária síntese da atormentada história do povo boliviano. A tragédia se repete, girando como uma “calesita”: há quase cinco séculos, a fabulosa riqueza da Bolívia amaldiçoa os bolivianos, que são os pobres mais pobres da América do Sul. "Bolivia não existe": não existe para seus filhos.
Na época colonial, a prata de Potosí foi, durante mais de dois séculos, o principal alimento do desenvolvimento capitalista da Europa. “Vale um Potosí”, se dizia, para elogiar o que não tinha preço. Em meados do século dezesseis, a cidade mais povoada, mais cara e mais esbanjadora do mundo brotou e cresceu ao pé da montanha que manava prata. Essa montanha, o chamado Morro Rico, tragava índios. “Estavam os caminhos cobertos, que parecia que se mudava o reino”, escreveu um rico mineiro de Potosí: as comunidades se esvaziavam de homens, que de todas as partes marchavam, prisioneiros, rumo a boca que conduzia às minas. Do lado de fora, temperaturas glaciais. De dentro, o inferno. De cada dez que entravam, só três saíam vivos. Mas os condenados à mina, que pouco duravam, geravam fortunas aos banqueiros flamencos, genoveses e alemães, credores da coroa espanhola, e eram esses índios quem faziam possível a acumulação de capitais que converteram a Europa no que a Europa é. O que ficou na Bolívia, em tudo isso? Uma montanha oca, uma incontável quantidade de índios assassinados por extenuação e uns palácios habitados por fantasmas.
 No século dezenove, quando a Bolívia foi derrotada na chamada Guerra do Pacífico, não só perdeu sua saída para o mar e ficou encurralada no coração da América do Sul. Também perdeu seu salitre. A história oficial (que é história militar), conta que o Chile ganhou essa guerra, mas a história real comprova que o vencedor foi o empresário britânico John Thomas North. Sem disparar um tiro nem gastar um níquel, North conquistou territórios que haviam sido da Bolívia e do Perú e se converteu no rei do salitre, que era então fertilizante imprescindível para alimentar as cansadas terras da Europa. No século vinte, a Bolívia foi o principal abastecedor de estanho no mercado internacional. As embalagens em lata, que deram fama a Andy Warlhol, provinham das minas que produziam estanho e viúvas. Na profundidade das minas, o implacável pó de silício matava por asfixia e os operários apodreciam seus pulmões para que o mundo pudesse consumir estanho barato. Durante a Segunda Guerra Mundial, a Bolívia contribuiu à causa aliada vendendo seu mineral a um preço dez vezes mais baixo que o baixo preço de sempre. Os salários dos operários se reduziram a nada, houve greves, as metralhadoras cuspiram fogo. Simón Patiño, dono do negócio e amo do país, não teve que pagar indenizações, porque a matança por metralhadora não é um acidente de trabalho. No entanto, dom Simón pagava cinqüenta dólares anuais de imposto de renda, mas pagava muito mais ao presidente da nação e a todo seu gabinete. Ele tinha sido um morto de fome tocado pela varinha mágica da deusa fortuna. Suas netas e netos ingressaram na nobreza européia. Se casaram com condes, marqueses e parentes de reis. Quando a revolução de 1952 destronou Patiño e nacionalizou o estanho, era pouco o mineral que sobrava. Nada além do que os restos de meio século de desaforada exploração ao serviço do mercado mundial.
  Faz mais de cem anos, o historiador Gabriel René Moreno descobriu que o povo boliviano era "celularmente incapaz". Ele tinha colocado na balança um cérebro indígena e um cérebro mestiço, e tinha comprovado que pesavam entre cinco, sete e dez onças menos que o cérebro da raça branca. Passado o tempo e, o país que não existe, segue doente de racismo. Mas o país que quer existir, onde a maioria indígena não tem vergonha de ser o que é, “no escupe al espejo”. Essa Bolívia, farta de viver em função do progresso alheio, é o país de verdade. Sua história ignorada, abunda em derrotas e traições, mas também em milagres capazes de fazer que os depreciados deixem de depreciar-se a si mesmo e deixem de brigar entre si. Fatos assombrosos, de muito brio, estão ocorrendo, sem ir mais longe, nestes tempos que passam.
 No ano 2000, um caso único no mundo: um levante popular desprivatizou a água. A chamada “guerra da água” aconteceu em Cochabamba. Os camponeses marcharam vindos dos vales e bloquearam a cidade e a cidade também se rebelou. Foram respondidos com balas e gases, o governo decretou o estado de sítio. Mas a rebelião coletiva prosseguiu, incontrolável, até que numa investida final a água foi arrancada das mãos da empresa Bechtel e as pessoas recuperam o rego de seus corpos e de suas plantações. (A empresa Bechtel, com sede na Califórnia, recebe agora o consolo do presidente Bush, que a presenteia com contratos milionários no Iraque). Faz alguns meses, outra explosão popular na Bolívia venceu nada menos do que o Fundo Monetário Internacional. O Fundo vendeu cara a sua derrota, cobrou mais de 30 vidas assassinadas por chamadas forças da ordem, mas o povo cumpriu sua façanha. O governo não teve outro remédio que o de anular o imposto sobre salários, que o Fundo tinha mandado aplicar. Agora, é a guerra do gás. A Bolívia possui enormes reservas de gás natural. Sánchez de Lozada tinha chamado de capitalização a privatização mal dissimulada, mas o país que quer existir acaba de demonstrar que não tem memória ruim. Outra vez a velha história da riqueza que se evapora em mãos alheias?  "O gás é nosso direito ", proclamavam as faixas nas manifestações. As pessoas exigiam e seguem exigindo que o gás fique a serviço da Bolívia, ao invés da Bolívia se submeter, uma vez mais, à ditadura de seu subsolo. O direito de autodeterminação, que tanto se invoca e tão pouco se respeita, começa por aí. A desobediência popular fez perder um rentável negócio à corporação Pacific LNG, integrada por Repsol, British Gas e Panamerican Gas, que soube ser sócia da empresa Enron, famosa por seus virtuosos costumes. Tudo indica que a corporação ficará com vontade de ganhar, como esperava, dez dólares por cada dólar investido. Por sua parte, o fugitivo Sánchez de Lozada perdeu a presidência. Seguramente não terá perdido o sono. Sobre sua consciência pesa o crime de mais de oitenta manifestantes, mas esta não tem sido sua primeira carnificina e este adepto da modernização não se atormenta por nada que não seja rentável. Ao fim das contas, ele pensa e fala em inglês, mas não o inglês de Shakespeare: o inglês de Bush.
 

CUBA DÓI

 
As prisões e os fuzilamentos em Cuba são notícias muito boas para o superpoder universal, que está com muitas ganas de eliminar essa espinha atravessada na garganta. São muito más notícias, no entanto, notícias tristes, que doem muito, para todos os que crêem que é admirável a valentia desse país pequenino e tão capaz de grandeza, mas que também crêem que a liberdade e a justiça marcham juntas ou não marcham. Tempo de muito más notícias: porque se tínhamos pouco a ver com a impunidade da carnificina do Iraque, o governo cubano comete esses atos que, como diria Carlos Quijano, "pecam contra a esperança".
Rosa Luxemburgo, que deu a vida pela revolução socialista, divergia de Lênin em relação ao projeto de uma nova sociedade. Ela escreveu palavras proféticas sobre o que não queria. Foi assassinada na Alemanha, faz 85 anos, mas continua tendo razão: "A liberdade só para os partidários do governo, só para os membros de um partido, por mais numerosos que sejam, não é liberdade. A liberdade é sempre liberdade para o que pensa diferente". E também: "Sem eleições gerais, sem uma liberdade de imprensa e uma liberdade de reunião ilimitadas, sem uma luta de opiniões livres, a vida vegeta e murcha em todas as instituições públicas, e a burocracia chega a ser o único elemento ativo".
     O século XX, e o que vai do XXI, deu testemunho de uma dupla traição ao socialismo: a claudicação da social-democracia, que em nossos dias chegou ao cume com o sargento Tony Blair, e o desastre dos Estados comunistas convertidos em estados policiais. Muitos desses Estados já desmoronaram, sem pena nem glória, e seus burocratas reciclados servem ao novo amo com patético entusiasmo. A revolução cubana nasceu para ser diferente. Submetida a uma pressão imperial incessante, sobreviveu como pôde e não como quis. Muito se sacrificou esse povo, valente e generoso, para continuar de pé em um mundo cheio de agachados. Mas, no caminho duro que percorreu em tantos anos, a revolução foi perdendo o vento de espontaneidade e de frescura que desde o início a empurrou. Digo com dor: Cuba dói.
        A má consciência não me enreda a língua para repetir o que tenho dito, dentro e fora da ilha: não acredito, nunca acreditei na democracia do partido único (tampouco nos Estados Unidos, onde há um partido único disfarçado de dois), nem creio que a onipotência do Estado seja a resposta à onipotência do mercado.
   As longas condenações à prisão são, creio, gols contra. Convertem em mártires da liberdade de expressão a uns grupos que abertamente operavam a partir da casa de James Cason, o representante dos interesses de Bush em Havana. Tão longe havia chegado a paixão libertadora de Cason, que ele mesmo fundou a Seção Juvenil do Partido Liberal Cubano, com a delicadeza e o pudor que caracterizam seu chefe. Atuando como se esses grupos fossem uma grave ameaça, as autoridades cubanas lhes renderam homenagem, e lhes presentearam com o prestígio que as palavras adquirem quando estão proibidas. Essa "oposição democrática" não tem nada a ver com as genuínas expectativas dos cubanos honestos. Se a revolução não lhe tivesse feito o favor de reprimi-la, e se em Cuba houvesse plena liberdade de imprensa e de opinião, essa presumível dissidência se desqualificaria a si mesma. E receberia o castigo que merece, o castigo do ostracismo, por sua notória nostalgia dos tempos coloniais em um país que elegeu o caminho da dignidade nacional.
     Os Estados Unidos, incansável fábrica de ditaduras no mundo, não tem autoridade moral para dar lições de democracia a ninguém. Poderia, sim, dar lições de pena de morte o presidente Bush, que sendo governador do Texas, proclamou-se campeão do crime de Estado, assinando 152 execuções. Mas ¿ as revoluções de verdade, as que se fazem de baixo para cima e de dentro para fora, como se fez a Revolução Cubana, necessitam aprender maus costumes do inimigo que combatem? Não tem justificativa a pena de morte, aplique-se onde se aplicar.
      ¿ Será Cuba a próxima presa da caça de países empreendidas pelo presidente Bush? Foi o que anunciou seu irmão Jeb, governador da Flórida, quando disse: "Agora é preciso apontar a mira para o vizinho", enquanto a exilada

 
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