OS TRES LEÕEZINHOS
Era uma vez, numa determinada floresta, uma leoa-mãe havia dado à luz 3 leõezinhos bem bonitinhos: O Rax, o Rix e o Rex. Um dia o macaco, representante eleito dos animais súditos, malandro e puxa-saco, fez uma reunião com toda a bicharada da floresta e...
 
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O ESPELHo
Esboço de uma nova teoria da alma humana 
 

 
Machado de Assis
(análise e comentário no final) 
 
      Quatro ou cinco cavalheiros debatiam, uma noite, várias questões de alta transcendência, sem que a disparidade dos votos trouxesse a menor alteração aos espíritos. A casa ficava no morro de Santa Teresa, a sala era pequena, alumiada a velas, cuja luz fundia-se misteriosamente com o luar que vinha de fora. Entre a cidade, com as suas agitações e aventuras, e o céu, em que as estrelas pestanejavam, através de uma atmosfera límpida e sossegada, estavam os nossos quatro ou cinco investigadores de coisas metafísicas, resolvendo amigavelmente os mais árduos problemas do universo.
 
Por que quatro ou cinco? Rigorosamente eram quatro os que falavam; mas, além deles, havia na sala um quinto personagem, calado, pensando, cochilando, cuja espórtula no debate não passava de um ou outro resmungo de aprovação. Esse homem tinha a mesma idade dos companheiros, entre quarenta e cinqüenta anos, era provinciano, capitalista, inteligente, não sem instrução, e, ao que parece, astuto e cáustico. Não discutia nunca; e defendia-se da abstenção com um paradoxo, dizendo que a discussão é a forma polida do instinto batalhador que jaz no homem como uma herança bestial; e acrescentava que os serafins e os querubins não controvertiam nada, e, aliás, eram a perfeição espiritual e eterna. Como desse esta mesma resposta naquela noite, contestou-lha um dos presentes, e desafiou-o a demonstrar o que dizia, se era capaz. Jacobina (assim se chamava ele) refletiu um instante, e respondeu:
 
— Pensando bem, talvez o senhor tenha razão.
 
Vai senão quando, no meio da noite, sucedeu que este casmurro usou da palavra, e não dois ou três minutos, mas trinta ou quarenta. A conversa, em seus meandros, veio a cair na natureza da alma, ponto que dividiu radicalmente os quatro amigos. Cada cabeça, cada sentença; não só o acordo, mas a mesma discussão, tornou-se difícil, senão impossível, pela multiplicidade das questões que se deduziram do tronco principal, e um pouco, talvez, pela inconsistência dos pareceres. Um dos argumentadores pediu ao Jacobina alguma opinião, — uma conjetura, ao menos.
 
— Nem conjetura, nem opinião, redargüiu ele; uma ou outra pode dar lugar a dissentimento, e, como sabem, eu não discuto. Mas, se querem ouvir-me calados, posso contar-lhes um caso de minha vida, em que ressalta a mais clara demonstração acerca da matéria de que se trata. Em primeiro lugar, não há uma só alma, há duas...
 
— Duas?
 
— Nada menos de duas almas. Cada criatura humana traz duas almas consigo: uma que olha de dentro para fora, outra que olha de fora para dentro . . .
Espantem-se à vontade; podem ficar de boca aberta, dar de ombros, tudo; não admito réplica. Se me replicarem, acabo de fumar meu charuto e vou dormir. A alma exterior pode ser um espírito, um fluido, um homem, muitos homens, um objeto, uma operação, um cargo, profissão. Há casos, por exemplo, em que um simples botão de camisa, ou distintivo,  é a alma exterior de uma pessoa; — e assim também a polca, o voltarete, um livro, uma máquina, um par de botas, uma cavatina, um tambor, etc. Está claro que o ofício dessa segunda alma é transmitir a vida, como a primeira: as duas completam o homem, que é, metafisicamente falando, uma laranja. Quem perde uma das metades, perde naturalmente metade da existência; e casos há, não raros, em que a perda da alma exterior implica a da existência inteira. Shylock, por exemplo. A alma exterior daquele judeu eram as suas jóias; perdê-los equivalia a morrer. “Nunca mais verei o meu ouro, diz ele a Tubal; é um punhal que me enterras no coração”. Vejam bem esta frase; a perda das jóias, alma exterior, era a morte para ele. Agora, é preciso saber que a alma exterior não é sempre a mesma...
 
 
— Não?
 
— Não, senhor; muda de natureza e de estado. Não aludo a certas almas absorventes, como a pátria, com a qual disse o Camões que morria, e o poder, que foi a alma exterior de César e de Cromwell. São almas enérgicas e exclusivas; mas há outras, embora enérgicas, de natureza mutável. Há cavalheiros, por exemplo, cuja alma exterior, nos primeiros anos, foi um chocalho ou um cavalinho de pau, e mais tarde uma provedoria de irmandade, suponhamos. Pela minha parte, conheço uma senhora, — na verdade, gentilíssima, — que muda de alma exterior cinco, seis vezes por ano. Durante a estação lírica é a ópera; cessando a estação, a alma exterior substitui-se por outra: um concerto, um baile do Cassino, a Rua do Ouvidor, Petrópolis...
 
— Perdão; essa senhora quem é?
 
— Essa senhora é parenta do diabo, e tem o mesmo nome: chama-se Legião... E assim outros muitos casos. Eu mesmo tenho experimentado dessas trocas. Não as relato, porque iria longe; restrinjo-me ao episódio de que lhes falei. Um episódio dos meus vinte e cinco anos...
 
Os quatro companheiros, ansiosos de ouvir o caso prometido, esqueceram a controvérsia. Santa curiosidade! tu não és só a alma da civilização, és também o pomo da concórdia, fruta divina, de outro sabor que não aquele pomo da mitologia. A sala, até há pouco ruidosa de física e metafísica, é agora um mar morto; todos os olhos estão no Jacobina, que arruma a ponta do charuto, rebuscando as memórias. Eis aqui como ele começou a narração:
 
— Tinha vinte e cinco anos, era pobre, e acabava de ser nomeado alferes da guarda nacional (seria como se fosse hoje um delegado de policia) . Não imaginam o acontecimento que isto foi em nossa casa. Minha mãe ficou tão orgulhosa! tão contente! Chamava-me o seu alferes (doutor delegado). Primos e tios, foi tudo uma alegria sincera e pura. Na vila, note-se bem, houve alguns despeitados; choro e ranger de dentes, como na Escritura; e o motivo não foi outro senão que o posto tinha muitos candidatos e que esses perderam. Suponho também que uma parte do desgosto foi inteiramente gratuita: nasceu da simples distinção. Lembra-me de alguns rapazes, que se davam comigo, e passaram a olhar-me de revés, durante algum tempo. Em compensação, tive muitas pessoas que ficaram satisfeitas com a nomeação; e a prova é que todo o fardamento me foi dado por amigos... Vai então uma das minhas tias, D. Marcolina, viúva do Capitão Peçanha, que morava a muitas léguas da vila, num sítio escuso e solitário, desejou ver-me, e pediu que fosse ter com ela e levasse a farda. Fui, acompanhado de um pajem, que daí a dias tornou à vila, porque a tia Marcolina, apenas me pilhou no sítio, escreveu a minha mãe dizendo que não me soltava antes de um mês, pelo menos. E abraçava-me! Chamava-me também o seu alferes. Achava-me um rapagão bonito. Como era um tanto patusca, chegou a confessar que tinha inveja da moça que houvesse de ser minha mulher. Jurava que em toda a província não havia outro que me pusesse o pé adiante. E sempre alferes; era alferes para cá, alferes para lá, alferes a toda a hora. Eu pedia-lhe que me chamasse Joãozinho, como dantes; e ela abanava a cabeça, bradando que não, que era o “senhor alferes”. Um cunhado dela, irmão do finado Peçanha, que ali morava, não me chamava de outra maneira. Era o “senhor alferes”, não por gracejo, mas a sério, e à vista dos escravos, que naturalmente foram pelo mesmo caminho. Na mesa tinha eu o melhor lugar, e era o primeiro servido. Não imaginam. Se lhes disser que o entusiasmo da tia Marcolina chegou ao ponto de mandar pôr no meu quarto um grande espelho, obra rica e magnífica, que destoava do resto da casa, cuja mobília era modesta e simples... Era um espelho que lhe dera a madrinha, e que esta herdara da mãe, que o comprara a uma das fidalgas vindas em 1808 com a corte de D. João VI. Não sei o que havia nisso de verdade; era a tradição. O espelho estava naturalmente muito velho; mas via-se-lhe ainda o ouro, comido em parte pelo tempo, uns delfins esculpidos nos ângulos superiores da moldura, uns enfeites de madrepérola e outros caprichos do artista. Tudo velho, mas bom...
 
— Espelho grande?
 
— Grande. E foi, como digo, uma enorme fineza, porque o espelho estava na sala; era a melhor peça da casa. Mas não houve forças que a demovessem do propósito; respondia que não fazia falta, que era só por algumas semanas, e finalmente que o “senhor alferes” merecia muito mais. O certo é que todas essas coisas, carinhos, atenções, obséquios, fizeram em mim uma transformação, que o natural sentimento da mocidade ajudou e completou. Imaginam, creio eu?
 
— Não.
 
— O alferes (cargo de delegado) eliminou o homem.
 
   
Durante alguns dias as duas naturezas equilibraram-se; mas não tardou que a primitiva cedesse à outra; ficou-me uma parte mínima de humanidade. Aconteceu então que a alma exterior, que era dantes o sol, o ar, o campo, os olhos das moças, mudou de natureza, e passou a ser a cortesia e os rapapés da casa, tudo o que me falava do posto, nada do que me falava do homem. A única parte do cidadão que ficou comigo foi aquela que entendia com o exercício da patente; a outra dispersou-se no ar e no passado. Custa-lhes acreditar, não ?
 
- Custa-me até entender, respondeu um dos ouvintes.
— Vai entender. Os fatos explicarão melhor os sentimentos: os fatos são tudo. A melhor definição do amor não vale um beijo de moça namorada; e, se bem me lembro, um filósofo antigo demonstrou o movimento andando. Vamos aos fatos. Vamos ver como, ao tempo em que a consciência do homem se obliterava, a do alferes tornava-se viva e intensa. As dores humanas, as alegrias humanas, se eram só isso, mal obtinham de mim uma compaixão apática ou um sorriso de favor. No fim de três semanas, era outro, totalmente outro. Era exclusivamente alferes. Ora, um dia recebeu a tia Marcolina uma notícia grave; uma de suas filhas, casada com um lavrador residente dali a cinco léguas, estava mal e à morte. Adeus, sobrinho! adeus, alferes! Era mãe extremosa, armou logo uma viagem, pediu ao cunhado que fosse com ela, e a mim que tomasse conta do sítio. Creio que, se não fosse a aflição, disporia o contrário; deixaria o cunhado, e iria comigo. Mas o certo é que fiquei só, com os poucos escravos da casa. Confesso-lhes que desde logo senti uma grande opressão, alguma coisa semelhante ao efeito de quatro paredes de um cárcere, subitamente levantadas em torno de mim. Era a alma exterior que se reduzia; estava agora limitada a alguns espíritos boçais. O alferes continuava a dominar em mim, embora a vida fosse menos intensa, e a consciência mais débil. Os escravos punham uma nota de humildade nas suas cortesias, que de certa maneira compensava a afeição dos parentes e a intimidade doméstica interrompida. Notei mesmo, naquela noite, que eles redobravam de respeito, de alegria, de protestos. Nhô alferes (delegado) de minuto a minuto. Nhô alferes (doutor delegado) é muito bonito; nhô alferes há de ser coronel; nhô alferes há de casar com moça bonita, filha de general; um concerto de louvores e profecias, que me deixou extático. Ah! pérfidos! mal podia eu suspeitar a intenção secreta dos malvados.
 
— Matá-los?
 
— Antes assim fosse.
 
— Coisa pior ?
 
— Ouçam-me. Na manhã seguinte achei-me só. Os velhacos, seduzidos por outros, ou de movimento próprio, tinham resolvido fugir durante a noite; e assim fizeram. Achei-me só, sem mais ninguém, entre quatro paredes, diante do terreiro deserto e da roça abandonada. Nenhum fôlego humano. Corri a casa toda, a senzala, tudo, nada, ninguém, um molequinho que fosse. Galos e galinhas tão-somente, um par de mulas, que filosofavam a vida, sacudindo as moscas, e três bois. Até mesmo os cães foram levados pelos escravos. Nenhum ente humano. Parece-lhes que isto era melhor do que ter morrido? era pior. Não por medo; juro-lhes que não tinha medo; era um pouco atrevidinho, tanto que não senti nada, durante as primeiras horas. Fiquei triste por causa do dano causado à tia Marcolina; fiquei também um pouco perplexo, não sabendo se devia ir ter com ela, para lhe dar a triste notícia, ou ficar tomando conta da casa. Adotei o segundo alvitre, para não desamparar a casa, e porque, se a minha prima enferma estava mal, eu ia somente aumentar a dor da mãe, sem remédio nenhum; finalmente, esperei que o irmão do tio Peçanha voltasse naquele dia ou no outro, visto que tinha saído havia já trinta e seis horas. Mas a manhã passou sem vestígio dele; e à tarde comecei a sentir a sensação como de pessoa que houvesse perdido toda a ação nervosa, e não tivesse consciência da ação muscular. O irmão do tio Peçanha não voltou nesse dia, nem no outro, nem em toda aquela semana. Minha solidão tomou proporções enormes. Nunca os dias foram mais compridos, nunca o sol abrasou a terra com uma obstinação mais cansativa. As horas batiam de século a século, no velho relógio da sala, cuja pêndula, tic-tac, tic-tac, feria-me a alma interior, como um cascudo contínuo da eternidade. Quando, muitos anos depois, li uma poesia americana, creio que de Longfellow, e topei com este famoso estribilho: Never, for ever! — For ever, never! confesso-lhes que tive um calafrio: recordei-me daqueles dias medonhos. Era justamente assim que fazia o relógio da tia Marcolina: — Never, for ever!— For ever, never! Não eram golpes de pêndula, era um diálogo do abismo, um cochicho do nada. E então de noite! Não que a noite fosse mais silenciosa. O silêncio era o mesmo que de dia. Mas a noite era a sombra, era a solidão ainda mais estreita ou mais larga. Tic-tac, tic-tac. Ninguém nas salas, na varanda, nos corredores, no terreiro, ninguém em parte nenhuma... Riem-se?
 
— Sim, parece que tinha um pouco de medo.
 
— Oh! fora bom se eu pudesse ter medo! Viveria. Mas o característico daquela situação é que eu nem sequer podia ter medo, isto é, o medo vulgarmente entendido. Tinha uma sensação inexplicável. Era como um defunto andando, um sonâmbulo, um boneco mecânico. Dormindo, era outra coisa. O sono dava-me alívio, não pela razão comum de ser irmão da morte, mas por outra. Acho que posso explicar assim esse fenômeno: — o sono, eliminando a necessidade de uma alma exterior, deixava atuar a alma interior. Nos sonhos, fardava-me, orgulhosamente, no meio da família e dos amigos, que me elogiavam o garbo, que me chamavam alferes; vinha um amigo de nossa casa, e prometia-me o posto de tenente, outro o de capitão ou major; e tudo isso fazia-me viver. Mas quando acordava, dia claro, esvaía-se com o sono a consciência do meu ser novo e único, — porque a alma interior perdia a ação exclusiva, e ficava dependente da outra, que teimava em não tornar... Não tornava. Eu saía fora, a um lado e outro, a ver se descobria algum sinal de regresso. Soeur Anne, soeur Anne, ne vois-tu rien venir? Nada, coisa nenhuma; tal qual como lenda francesa. Nada mais do que a poeira da estrada e o capinzal dos morros. Voltava para casa, nervoso, desesperado, estirava-me no canapé (sofá) da sala. Tic-tac, tic-tac. Levantava-me, passeava, tamborilava os dedos nos vidros das janelas, assobiava. Em certa ocasião lembrei-me de escrever alguma coisa, um artigo político, um romance, uma ode; não escolhi nada definitivamente; sentei-me e tracei no papel algumas palavras e frases soltas, para intercalar no estilo. Mas o estilo, como a tia Marcolina, deixava-se estar. Soeur Anne, soeur Anne... Coisa nenhuma. Quando muito via negrejar a tinta e alvejar o papel.
 
— Mas não comia?
 
— Comia mal, frutas, farinha, conservas, algumas raízes tostadas ao fogo, mas suportaria tudo alegremente, se não fora a terrível situação moral em que me achava. Recitava versos, discursos, trechos latinos, liras de Gonzaga, oitavas de Camões, décimas, uma antologia em trinta volumes. Às vezes fazia ginástica; outras dava beliscões nas pernas; mas o efeito era só uma sensação física de dor ou de cansaço, e mais nada. Tudo silêncio, um silêncio vasto, enorme, infinito, apenas sublinhado pelo eterno tic-tac da pêndula. Tic-tac, tic-tac...
 
— Na verdade, era de enlouquecer.
 
— Vão ouvir coisa pior. Convém dizer-lhes que, desde que ficara só, não olhara uma só vez para o espelho. Não era abstenção deliberada, não tinha motivo; era um impulso inconsciente, um receio de achar-me um e dois, ao mesmo tempo, naquela casa solitária; e se tal explicação é verdadeira, nada prova melhor a contradição humana, porque no fim de oito dias, deu-me na veneta de olhar para o espelho com o fim justamente de achar-me dois. Olhei e recuei. O próprio vidro parecia conjurado com o resto do universo; não me estampou a figura nítida e inteira, mas vaga, esfumada, difusa, sombra de sombra. A realidade das leis físicas não permite negar que o espelho reproduziu-me textualmente, com os mesmos contornos e feições; assim devia ter sido.
Mas tal não foi a minha sensação. Então tive medo; atribuí o fenômeno à excitação nervosa em que andava; receei ficar mais tempo, e enlouquecer. — Vou-me embora, disse comigo. E levantei o braço com gesto de mau humor, e ao mesmo tempo de decisão, olhando para o vidro; o gesto lá estava, mas disperso, esgaçado, mutilado... Entrei a vestir-me, murmurando comigo, tossindo sem tosse, sacudindo a roupa com estrépito, afligindo-me a frio com os botões, para dizer alguma coisa. De quando em quando, olhava furtivamente para o espelho; a imagem era a mesma difusão de linhas, a mesma decomposição de contornos... Continuei a vestir-me. Subitamente por uma inspiração inexplicável, por um impulso sem cálculo, lembrou-me... Se forem capazes de adivinhar qual foi a minha idéia...
 
— Diga.
 
— Estava a olhar para o vidro, com uma persistência de desesperado, contemplando as próprias feições derramadas e inacabadas, uma nuvem de linhas soltas, informes, quando tive o pensamento... Não, não são capazes de adivinhar.
 
— Mas, diga, diga.
 
— Lembrou-me vestir a farda de alferes. Vesti-a, aprontei-me de todo; e, como estava defronte do espelho, levantei os olhos, e... não lhes digo nada; o vidro reproduziu então a figura integral; nenhuma linha de menos, nenhum contorno diverso; era eu mesmo, o alferes, que achava, enfim, a alma exterior. Essa alma ausente com a dona do sítio, dispersa e fugida com os escravos, ei-la recolhida no espelho. Imaginai um homem que, pouco a pouco, emerge de uma letargia, abre os olhos sem ver, depois começa a ver, distingue as pessoas dos objetos, mas não conhece individualmente uns nem outros; enfim, sabe que este é Fulano, aquele é Sicrano; aqui está uma cadeira, ali um sofá. Tudo volta ao que era antes do sono. Assim foi comigo. Olhava para o espelho, ia de um lado para outro, recuava, gesticulava, sorria, e o vidro exprimia tudo. Não era mais um autômato, era um ente animado. Daí em diante, fui outro. Cada dia, a uma certa hora, vestia-me de alferes, e sentava-me diante do espelho, lendo, olhando, meditando; no fim de duas, três horas, despia-me outra vez. Com este regímen pude atravessar mais seis dias de solidão, sem os sentir...
 
Quando os outros voltaram a si, o narrador tinha descido as escadas.
Análise e comentário:
 
“- nada menos de duas almas. cada criatura humana traz duas almas consigo: uma que olha de dentro para fora, outra que olha de fora para dentro... a alma exterior podeser um espírito, um fluído, um homem, muitos homens, um objeto, uma operação”
       
                                                Machado de Assis
Um grupo de senhores, por várias noites, reuniu-se para discutir sobre os assuntos de alta transcendência – coisas metafísicas. no grupo, um dos participantes se destacava pelo silêncio. numa das noites, incitado por um dos participantes, o casmurro usou a palavra – narraria um fato de sua vida e não consentia réplica. não se tratava de opinião ou conjectura, era apenas uma demonstração da matéria debatida.
“em primeiro lugar, não há uma só alma, há duas...” a
afirmação causa perplexidade, mas o narrador não se
intimida e reitera que existem duas almas: uma exterior, outra, interior... a alma exterior não é sempre a mesma, modifica-se com as circunstâncias. as duas juntas, metafisicamente, se completam, quem perde sua alma exterior vive incompletamente, e há caso de pessoas que perdem a existência inteira.
o homem continua relatando sua experiência de quando tinha 25 anos e fora nomeado alferes da guarda nacional tornou-se o centro de atenção de sua humilde família e passou a ser identificado como o sr. alferes. Não tardou e uma tia que morava a algumas léguas, convidou-o a passar alguns dias em sua casa, com a farda naturalmente. os dias passavam nas formalidades próprias de uma autoridade. a grande relíquia da casa, um grande espelho, fora colocado em seu quarto como sinal de admiração e orgulho.
“- o alferes eliminou o homem. durante alguns dias as duas naturezas equilibraram-se, mas não tardou que a primeira cedesse à outra; ficou-me uma parte íntima de humanidade aconteceu então que a alma exterior, que era dantes o sol, o ar, o campo, os olhos das moças, mudou de natureza, e passou a ser a cortesia e os rapapés da casa, tudo o que me falava do posto, nada do que me falava do homem. a única parte do cidadão que ficou comigo foi aquela que entendia com o exercício da patente, a outra dispersou-se no ar e no passado.”
Ocorreu o imprevisto e a tia teve que se ausentar por alguns dias. Restaram os escravos que utilizaram suas cortesias e louvores “nhô alferes é muito bonito, nhô alferes há de ser coronel”. um concerto de louvores escondia suas reais intenções. na manhã seguinte, todos haviam fugido. O homem, após alguns dias, no silêncio vasto tornara-se um boneco que mal comia, seu corpo era dominado de dor ou cansaço, nada mais... durante muitos dias não se olhou no espelho num impulso inconsciente, mas findo oito dias olhou-se no espelho com o fim de encontrar-se dois, mas o que viu foi uma figura vaga, dispersa, mutilada... sabia que pelas leis físicas aquilo não era possível, mas sua sensação era real – o espelho refletia uma decomposição de contornos. em desespero, em meio a feições fragmentadas, teve a idéia de vestir a farda de alferes e tornou a mirar-se. O homem, alferes, enfim, havia encontrado sua alma exterior. “essa alma ausente com a dona do sítio, dispersa e fugida com os escravos, ei-la recolhida no espelho.”
Assim, Machado de Assis esboçou uma nova teoria da alma humana, espelhando o homem em sua enorme ambigüidade de ser para si e ser para o outro. até que ponto as imagens convergem? o que antecede o objeto ou a reflexão? o espelho pode ser o outro a recriar a alma exterior? definir-se no que espelha do mundo, sentir-se importante ao assumir um papel representativo na sociedade. tornara-se um alferes e isto o identificava mais do que seu nome próprio, do que sua intimidade sem projeção. ele precisava da sombra sob seus pés para sentir-se imponente no mundo, precisava da palavra alferes repetida com orgulho para incorporar sua autoridade.
Sozinho no silêncio, perde-se na “sombra da sombra”, num eu fragmentado de um espelho que não conseguia projetar a alma exterior com a simples projeção do corpo. Era necessário o uso da farda para manter viva a alma que dominara sua alma interior. vestia-se num ritual e gesticulava diante do espelho todos os dias e pode atravessar mais seis dias sem perceber...  o signo do espelho, tantas vezes objeto de especulação, ganha aqui o papel de destaque – o encontro do homem com sua alma exterior. as reflexões de Lacan demonstram que o espelho é um fenômeno limiar que demarca as fronteiras entre o imaginário e o simbólico. a criança até se perceber no espelho é um ser fragmentado. É o que percebe ser. Para lacan são três as fases: a criança compreende o espelho como uma realidade; depois como uma imagem, e até que numa terceira fase percebe que a imagem refletida é sua.
A primeira consciência da completa individualidade vem do exterior. a criança reconstrói seus fragmentos num corpo externo. Será que serão sempre duas existências a coabitarem um corpo e uma imagem? qual a alma que transcende a relação especular e ganha corpo e espaço num eu absoluto?
Como disse Machado de Assis - são muitas as almas exteriores: a família, as realizações profissionais, o contato com os outros. Muitos objetos espelham nosso eu, encontramo-nos muitas vezes nas atitudes alheias, nos valorizamos nos elogios que ouvimos, nos sentimos vivos na percepção dos outros. São inúmeros os espelhos, ou almas exteriores, e um único e definitivo sujeito. Não deixemos que as coisas no mundo, seja ela qual for, ofusque e aniquile nossa alma interior. Aproveitando o esboço de nosso grande escritor, tentemos elaborar um novo enredo em que o espelho se interioriza e possamos nos reconhecer no vasto mundo.
A crônica finaliza com um trecho do brilhante ensaio “sobre os espelhos”, de Umberto Eco: “em todo caso, por mais fortes que sejam as ilusões, as ambigüidades, as confusões “sobre o limiar”, a tentação de homologar imagens especulares e registros, basta recorrer ao experimentum crucis: reproduza-se um espelho numa fotografia, num enquadramento cinematográfico ou televisivo, num quadro. Essas imagens de imagens especulares não funcionam como imagens especulares. do espelho não surge o registro ou ícone que não seja um outro espelho. o espelho, no mundo dos signos, transforma-se no fantasma de si mesmo, caricatura, escárnio lembrança.

                                O ESPELHO

Este conto pertence ao livro

Em O Espelho, conto escrito em 3a. pessoa, h

Papéis Avulsos. Tem como subtítulo a expressão esboço de uma nova teoria da alma humana.á o relato teórico que resolve a essência humana através da investigação metafísica, antecipada no subtítulo. Jacobina - personagem central do conto - toma a palavra e em 1a.pessoa revela como descobriu sua verdadeira essência, isto é, como reconheceu sua própria identidade ao vestir uma farda de alferes. O relato é feito a partir da imagem de duas metades de uma mesma laranja que constituem, em última instância, as duas almas humanas - a anterior e a exterior.

Ora, se o lado

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Quanto ao

Quanto ao

Quanto ao

O Espelho” é a matriz de uma certeza machadiana que poderia formular-se assim: só há consistência no desempenho do papel social; aquém da cena pública, a alma humana é dúbia e veleitária, ou seja, os tipos sociais (marido, comerciante, político, etc.) teriam um comportamento previsível, o que não ocorre individualmente com as pessoas.íntimo do comportamento não oferece congruência, a sua descrição torna-se um problema. O narrador já não conta com o sólido lastro de tipos, porque MA não se fixa em tipos, mas em personagens individualizadas, ambíguas, de construção literária problemática.ência radical vivida em O Espelhosó permite a fixação segura da máscara, da farda vitoriosa, do papel que absorveu perfeitamente o homem; isto é, o tipo, onde o homem é um ator social. A outra face, a que se partira e se esfumara diante do vidro, permanece uma interrogação : a face individual, problemática, que coexiste e se opõe à máscara da vida social. É o corpo opaco do medo, da vaidade, do ciúme, da inveja; numa palavra, o enigma do desejo que recusa mostrar-se nu ao olhar do outro: o desejo individual se esconde quando as personagens se limitam a desempenhar seus comportamentos sociais.foco narrativo, embora o conto ( a partir do momento da narrativa de Jacobina) tenha a narração em 1a. pessoa, há a presença do narrador onisciente (em 3a. pessoa) pois, ao invés de revelar tudo com exatidão, há expressões, no texto, ditas pelo próprio narrador que denotam dúvida ou hesitação.tempo, é cronológico, mas fundamenta, com arte, como se processa no indivíduo a ocorrência e a sensação de tempo psicológico. Exemplos de tempo cronológico: a conversa dos cavalheiros, a interferência de Jacobina e o desfecho. E as recordações de Jacobina como exemplo de tempo psicológico.espaço, o autor, na construção de seus contos, age como se fosse um cenógrafo moderno, que apenas sugere o cenário com poucos elementos somente aqueles indispensáveis para a ação, para que o espectador possa imaginar o local físico em que ela acontece.

E quanto ao

O Espelhomenciona uma sala pequena onde homens conversam e nada mais, Não ficamos sabendo se é um clube ou parte de uma casa de um dos participantes da conversa. Depois, Jacobina diz que foi levado para um sítio de sua tia e somos informados de que o sítio é “escuro e solitário, informação útil e necessária, pois a solidão é que vai permitir a descoberta da alma externa pela personagem.enredo, alma exterior, ou a que olha de fora para dentro, é, na aguda percepção de Machado de Assis, uma casca ou couraça que as pessoas criam para sobreviver na luta social. Só que algumas se prendem a elas de tal forma que eliminam sua alma interior, seu verdadeiro eu. É o que acontece com o narrador, Jacobina, que não se encontra refletido no espelho, pois está vazio. Ele se tornou apenas uma farda e quando não encontra ninguém que a veja, quando não a veste, descobre-se um nada, um vazio completo.
Vamos ao conto.
 
 

 

 

 

 
Versão para Impressão     
   
Nome:   isabella maria araújo cavalcante
Comentário:  gostei muito !!!! por isso que vou fazer ele pro meu trabalho !!!
   
Nome:   thaynara lorrany
Comentário:  adorei esse conto e por isso vou fazern valer
   
Nome:   Eduardo Seller
Comentário:  Muito bom! Eu gostei.
   
Nome:   camila
Comentário:  adorei esse conto e por isso vou fazer esse pro meu dever



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